7.15.2008

Estou há mais de ano cogitando o que fazer com o canteiro onde estava o “plantão”. O “plantão” era uma planta bem das vagabundas, e não faço a menor idéia do nome dela, mas que dava uma folha i-men-sa e daquele verde tão verdinho de planta, que você passa a adorá-la, mesmo sendo horrorosa como é. Quando nos mudamos pra essa casa, ela já morava aqui e,exagerada, nem se incomodou em não atrapalhar a garagem. Esparramou-se com o prazer dos arrogantes, suas folhas gigantescas a bloquear meia garagem. Tive um certo respeito por ela, moradora mais antiga que era. Deixamo-a como quis, e usamos a outra garagem. Aí chegou uma empregada absolutamente tapada, e não entendeu que o “plantão” estava ali, reinando solene, simplesmente, e não só a podou demais, como passou a jogar todas as folhas secas que varria em cima do pobre “plantão”. Ele não resistiu aos ferimentos e, com múltiplas fraturas e escoriações graves, veio a falecer pouco após a chegada do Biruta. O canteiro morreu, simplesmente. Nessa época minha mãe estava aqui, doente, sem andar, sem movimento das mãos. Eu não vi que o “plantão” estava morrendo. Fui negligente, confesso. Mas, o que há de se fazer? Eu gostava do “plantão”, admirava-o. Mas ele se foi, e sobrou só a árvore das flores mais vermelhas que já vi. O resto é uma terra que resseca muito rápido em volta, e eu aqui matutando o que plantar ali. Tem que ser algo à altura do “plantão”: resistente, imponente, folgado, exibicionista. Vira e mexe rodo numas lojas de plantas e assunto aqui, assunto ali. Em meio a esse meu delírio do canteiro perfeito, em homenagem ao “plantão”, nem percebi que os cachorros já tomaram conta do canteiro. Vivem cavocando a terra que mais parece uma areia agora, enterram coisas, coçam as costas, sujam as unhas e patas. E adoram. Eu, burrinha assim, não liguei uma coisa à outra. E eis que hoje, durante a sessão regação-que-a-moça-do-tempo-disse-que-não-vai-chover-nunca-mais, tive uma epifania. O canteiro é dos cachorros agora, sua tonta. Não tem mais terra pra eles em lugar nenhum, as ruas são asfaltadas e não vamos a parques. Aquele pedacinho de 1x0,5m é tudo o que eles têm de contato com a terra, e agora são donos de lá. Até as plantas entenderam, você não acreditaria: nem mato cresce ali. Nem um capinzinho de nada.



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Aí fico me perguntando agora: será que o “plantão” sacrificou seu espaço pros meus filhos? Será que ele soube que esses serão os únicos filhos que terei?