4.04.2007

I don't think you trust
In my self righteous suicide





Eu queria ser de novo a Amância, mas a Amância fica agora nesse limbo tão bizarro. Faz tanto tempo... e a Amância já morreu, em seu lugar tem duas putinhas bissexuais e ladras, as mesmas que mataram o H. Romeu Pinto, mataram impiedosamente, assassinaram-no para gastarem sua fortuna, a dele, acumulada com o suor de uma vida dedicada à ciência. A Amância sobreviveu, por assim dizer, chorando a morte do marido por muito tempo, até que ela acordou, e, sem mais nem menos, resolveu dar um grande pé na bunda da mediocridade. *I cry when angels deserve to die*. O filho que fizesse sua própria comida. As putinhas que arrumassem empregos. E ela foi ali curtir a Vida Noturna, beber a noite inteira, dançar feito louca e ainda transar com um desconhecido no carro, e nenhuma empresa de cobrança bateu à sua porta no subúrbio, não cortaram sua luz nem seu telefone, a comida não estragou na geladeira e os peixes continuaram vivos no aquário. A Amância viveu bem seus últimos dias, desconfiamos que ela morreu de velhice. Eu queria estar lá de novo, olhar em volta e decidir o que fazer, ter o controle absoluto, ressucitar a Amância, talvez. Mas parece que eu já não sou deus. Não consigo lembrar quando, exatamente, perdi o cargo. *Why have you forsaken me?* Talvez quando fechei o jogo, talvez quando as putinhas chegaram e não pude deixá-las feias. Talvez eu nunca tenha sido deus e eu é que estava sendo jogada, já que fico me vendo nessa simulação tosca da minha própria vida, sem nada acontecendo de verdade: um pouco de trabalho, um pouco de escola, um pouco de amigos, um pouco de família, um pouco de amor. Tudo assim na média, tudo na dose certa, e vou seguindo alheia aos sentimentos porque parece que não tenho mais direito a eles. Antes, eu podia, não era responsável, não era dona de casa, não era esposa, não era estudante universitária. Agora já não existo como existia, até os problemas acontecem numa curva constante e são tão previsíveis, tão comuns. Alguém deve estar me jogando. *Father, into your hands I commend my spirit*. Alguém descobriu que eu estou aqui e está me jogando, e são maus jogadores, mal sabem o que fazem. Jogam-me só alguns dias por semana, e às vezes ficam um ou dois meses sem aparecer. E quando não sou jogada, nada acontece. Fico só aqui nesse limbo, tão bizarro. Com um grande prisma verde pálido rodando acima da minha cabeça.