I don't think you trust
In my self righteous suicide
Eu queria ser de novo a Amância, mas a Amância fica agora nesse limbo tão bizarro. Faz tanto tempo... e a Amância já morreu, em seu lugar tem duas putinhas bissexuais e ladras, as mesmas que mataram o H. Romeu Pinto, mataram impiedosamente, assassinaram-no para gastarem sua fortuna, a dele, acumulada com o suor de uma vida dedicada à ciência. A Amância sobreviveu, por assim dizer, chorando a morte do marido por muito tempo, até que ela acordou, e, sem mais nem menos, resolveu dar um grande pé na bunda da mediocridade. *I cry when angels deserve to die*. O filho que fizesse sua própria comida. As putinhas que arrumassem empregos. E ela foi ali curtir a Vida Noturna, beber a noite inteira, dançar feito louca e ainda transar com um desconhecido no carro, e nenhuma empresa de cobrança bateu à sua porta no subúrbio, não cortaram sua luz nem seu telefone, a comida não estragou na geladeira e os peixes continuaram vivos no aquário. A Amância viveu bem seus últimos dias, desconfiamos que ela morreu de velhice. Eu queria estar lá de novo, olhar em volta e decidir o que fazer, ter o controle absoluto, ressucitar a Amância, talvez. Mas parece que eu já não sou deus. Não consigo lembrar quando, exatamente, perdi o cargo. *Why have you forsaken me?* Talvez quando fechei o jogo, talvez quando as putinhas chegaram e não pude deixá-las feias. Talvez eu nunca tenha sido deus e eu é que estava sendo jogada, já que fico me vendo nessa simulação tosca da minha própria vida, sem nada acontecendo de verdade: um pouco de trabalho, um pouco de escola, um pouco de amigos, um pouco de família, um pouco de amor. Tudo assim na média, tudo na dose certa, e vou seguindo alheia aos sentimentos porque parece que não tenho mais direito a eles. Antes, eu podia, não era responsável, não era dona de casa, não era esposa, não era estudante universitária. Agora já não existo como existia, até os problemas acontecem numa curva constante e são tão previsíveis, tão comuns. Alguém deve estar me jogando. *Father, into your hands I commend my spirit*. Alguém descobriu que eu estou aqui e está me jogando, e são maus jogadores, mal sabem o que fazem. Jogam-me só alguns dias por semana, e às vezes ficam um ou dois meses sem aparecer. E quando não sou jogada, nada acontece. Fico só aqui nesse limbo, tão bizarro. Com um grande prisma verde pálido rodando acima da minha cabeça.
In my self righteous suicide
Eu queria ser de novo a Amância, mas a Amância fica agora nesse limbo tão bizarro. Faz tanto tempo... e a Amância já morreu, em seu lugar tem duas putinhas bissexuais e ladras, as mesmas que mataram o H. Romeu Pinto, mataram impiedosamente, assassinaram-no para gastarem sua fortuna, a dele, acumulada com o suor de uma vida dedicada à ciência. A Amância sobreviveu, por assim dizer, chorando a morte do marido por muito tempo, até que ela acordou, e, sem mais nem menos, resolveu dar um grande pé na bunda da mediocridade. *I cry when angels deserve to die*. O filho que fizesse sua própria comida. As putinhas que arrumassem empregos. E ela foi ali curtir a Vida Noturna, beber a noite inteira, dançar feito louca e ainda transar com um desconhecido no carro, e nenhuma empresa de cobrança bateu à sua porta no subúrbio, não cortaram sua luz nem seu telefone, a comida não estragou na geladeira e os peixes continuaram vivos no aquário. A Amância viveu bem seus últimos dias, desconfiamos que ela morreu de velhice. Eu queria estar lá de novo, olhar em volta e decidir o que fazer, ter o controle absoluto, ressucitar a Amância, talvez. Mas parece que eu já não sou deus. Não consigo lembrar quando, exatamente, perdi o cargo. *Why have you forsaken me?* Talvez quando fechei o jogo, talvez quando as putinhas chegaram e não pude deixá-las feias. Talvez eu nunca tenha sido deus e eu é que estava sendo jogada, já que fico me vendo nessa simulação tosca da minha própria vida, sem nada acontecendo de verdade: um pouco de trabalho, um pouco de escola, um pouco de amigos, um pouco de família, um pouco de amor. Tudo assim na média, tudo na dose certa, e vou seguindo alheia aos sentimentos porque parece que não tenho mais direito a eles. Antes, eu podia, não era responsável, não era dona de casa, não era esposa, não era estudante universitária. Agora já não existo como existia, até os problemas acontecem numa curva constante e são tão previsíveis, tão comuns. Alguém deve estar me jogando. *Father, into your hands I commend my spirit*. Alguém descobriu que eu estou aqui e está me jogando, e são maus jogadores, mal sabem o que fazem. Jogam-me só alguns dias por semana, e às vezes ficam um ou dois meses sem aparecer. E quando não sou jogada, nada acontece. Fico só aqui nesse limbo, tão bizarro. Com um grande prisma verde pálido rodando acima da minha cabeça.


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