1.23.2006

Take a bottle drink it down. Pass it around.



Voltei das férias, o que não deixa de ser um tanto engraçado, considerando que não tenho emprego. Desempregada e de férias. Realmente, muito engraçado.

Fomos ali pra Prainha Branca, Bertioga/Guarujá, conhece? É um lugar legal, meio isolado, mas ainda assim cheio, depois que a trilha foi pavimentada. Antes você descia por uns barrancos de terra, de mochila nas costas e um sorriso na cara. Minhas lembranças eram boas, mesmo da trilha. Só me esqueci que eu era sete anos mais jovem e uns quinze quilos mais magra. Dessa vez, a coisa foi bem diferente.

- Sua mochila tá muito pesada?
- Não... acho que não.
- Vai dar pra subir a trilha?
- Acho que sim... tá pavimentada e tal, vai ser mais fácil.
- Com certeza... e nem tá chovendo.

...

- Pára que eu preciso descansar.
- Nós só andamos vinte metros.
- Eu sei.

...

- Maqes, meu braço esquerdo tá formigando. Acho que eu vou enfartar.
- Vai nada.
- Vou sim.

...

- Maqes, tô vendo tudo escuro. Acho que eu vou desmaiar.
- Vai nada.
- Vou sim.

...

- Fal...ta mui...to?
- Um quilômetro e pouco. Nós mal subimos cinquenta metros.
- Eu... vou... mo...rrer. Eu... sei... que... vou.
- Vai nada.
- Vou... sim.

...

- Maqes, tô vendo pontinhos brilhantes. É falta de oxigenação no cérebro.
- Você tá sentada.
- Eu sei.

....



Não sei como cheguei ao fim da trilha viva, e muito menos porque diabos não fomos de barco. Também não sei porque não me convenço de vez que não tenho mais idade para essas coisas, e nem porque não posso passar cinco dias de maiô e sem tomar banho ao invés de levar pilhas de roupas e cremes e xampus e presilhas e até tênis, que me recusei a usar mesmo sob os protestos totalmente válidos do Max. Na próxima, juro que vou descalça e de maiô e short e não levarei mais nada, nem um sabonete e nem uma camiseta.


Acampar é bom, eu adoro. O problema é a bagagem, mas, uma vez lá, com a barraca montada e amigos, encontrados ao acaso, em volta, assando uns peixes pescados ali mesmo pelo tiozinho pescador e ainda com cheiro de mar, e uma fogueirinha e os borrachudos fugindo da fumaça e todo mundo sentado na areia tomando vinho vagabundo e fumando maconha e contando mentira e piadas e rindo, você realmente esquece do trabalho e dos problemas e da sua vidinha como a conhece, e tem a certeza que nasceu ali e cresceu ali e conhece todos aqueles desconhecidos desde sempre e que nunca mais irá embora, porque aquela é a sua vida e é ali que você deveria estar porque você pertence àquele lugar e àquelas pessoas. Naquela comunidade bagunçada extremamente organizada, você pensa que talvez não precisasse de casa nem televisão nem computador nem chuveiro quente, porque sempre tem sol e peixes muito frescos e mar limpo, limpo, tão limpo que você vê seu pé mesmo quando está lá no fundão. O tempo parece nem passar e parece passar tão rápido, que não importa se é dia ou noite ou tarde e o calor está lá, e as sombras frescas das árvores estão lá, e o cheiro do mar está lá, e os sorrisos estão lá, e a lua cheia ilumina tudo, ilumina tanto que parece dia, e hippies tocam viloão e você canta junto mesmo sem saber a letra da música e amanhece e a areia quente queima seu pé e a picada do borrachudo coça, mas não importa, porque você precisa ficar lá porque aquela é sua casa e os (des)conhecidos são sua família e o peixe muito fresco é sua comida. E só.


....


Se bem que voltar pra casa, tomar um banho quente, deitar no sofá fofo com o ventilador na cara e comer pizza quatro queijos de São Paulo assistindo Supernatural é tão (ou mais) maravilhoso quanto. Tem hora pra tudo, certo? Certo.