Algum dia lá pelos idos de mil novecentos e oitenta e sete.
- Oi, sumida.
- Oi, tio.
- Como estão as coisas?
- Tudo bem.
- Tem visto teu pai?
- Depois que ele saiu de casa, não muito.
- E teu irmão?
- Tá bem.
- Tu sabe se tua mãe tá precisando de dinheiro? Ela não quer me falar.
- Não sei, tio. Ela tá trabalhando muito, pegou outro horário na escola. Tô cuidando do meu irmão.
- Eu sei. Faz assim, vou mandar um dinheiro num envelope por um amigo meu aí de São Paulo. Tu dá pra ela e diz que foi teu pai que mandou.
- Tá bom.
.....
Março de mil novecentos e oitenta e nove. Um dia de muita chuva.
- Oi, sumida.
- Oi, tio.
- Olha, vou casar.
- É mesmo? Sua namorada tá grávida?
- Não, mas vai ficar.
- Que legal. Vamos ter primos.
- A festa vai ser lá no Hípico. Tu vem?
- Vou. Se não tiver prova.
- Se tiver, falta. A gente arruma um atestado.
- Minha mãe vai ter um chilique.
- Tua mãe sempre tem chilique. Compra uma roupa bonita pra ti e pro teu irmão que eu mando o dinheiro.
- Tá bom.
.....
Algum dia de agosto de mil novecentos e noventa e sete.
- Oi, sumida.
- Oi, tio.
- Tua mãe falou que tu tá namorando.
- Tô.
- Quem é?
- O Max. Estudou comigo na Federal.
- O que ele faz?
- Estágio.
- Na área?
- É.
- Traz ele aqui em casa.
- Qualquer dia.
- Tá. E já avisa pro cabra que se ele te maltratar, eu acabo com a raça dele.
- Ele é legal, tio.
- Espero. E a faculdade?
- Assim, assim.
- Química é uma merda.
- Eu sei.
.....
Dez de abril de mil novecentos e noventa e nove, quatro e alguma coisa da manhã.
- Tio, desculpa. Não consegui pensar no número de mais ninguém.
- O que aconteceu?
- Meu irmão sofreu um acidente. Morreu na hora.
- Tua mãe?
- Ainda não sabe.
- E o Max?
- Tá vindo.
- E tu?
- Sei lá, nem tô pensando direito.
- Tô indo. Subo a serra em meia hora. Fica com a tua mãe.
- Tá.
- Fica com a tua mãe.
- Tá.
Voz chorosa disfarçada. Homem não chora.
- O Max cuida de ti.
- Eu sei.
.....
Dez de abril de mil novecentos e noventa e nove, quatro e alguma coisa da tarde.
- Ô grande, não tem previsão pra liberar o menino?
- Não. Hoje não tem plantonista pra autópsia.
- O enterro vai ser em Santos, a família tá esperando notícia.
- De repente dá pra gente conversar, chefe.
- Quanto é pra liberar o menino?
- Milão resolve.
- Caralho, mermão, tô quebrado.
- Faz assim, deixo por oitocentos.
...
- Vou ali no banco.
- Pra quê, tio?
- Nada não. Fica aí com o Max que ele cuida de ti.
- Eu sei.
.....
Algum dia de outubro de mil novecentos e noventa e nove, pela tarde.
- Oi, tio.
- Oi, sumida.
- Cansei. Não quero mais fazer essa faculdade do caralho.
- Eu te avisei que química é uma merda.
- Eu sei.
- O que tu quer fazer?
- Sei lá.
- Tu não tá trabalhando com comunicação?
- Tô.
- Gosta?
- Gosto.
- Segue nessa área.
- Não sei nem por onde começar.
- A gente dá um jeito. Mas tua mãe vai ter um chilique.
- Eu sei. Ela sempre tem chilique.
- Tu precisa de uma máquina boa. Vou falar com ela, a gente monta uma na Santa Efigênia. Racha o custo.
- Tá bom.
- Quanto tempo falta pra tu te formar?
- Um ano.
- Não quer terminar? Tem certeza?
- Tenho.
- Tá certo. Vou subir no fim de semana pra gente conversar.
- Tá bom.
- E o Max?
- Tá bem.
- Tá cuidando bem de ti?
- Tá sim.
- Manda um abraço pra ele e um beijo pra tua mãe.
- Beijo, tio.
.....
Algum dia de dois mil e um, duas e pouco da tarde.
- Acorda, mulher!
- Tinha que ser você pra fazer esse escândalo.
- Vem provar o peixe que eu trouxe pra vocês.
- Tô de ressaca, tio.
- Vem logo, não enrola. Prova aí e me diz que peixe é esse.
- Hummmmm... atum?
- Hahahahahahaha! Essa puxou o paladar do tio mesmo! Tua mãe achando que é pescada.
- Ela tá é traumatizada com o bagre que meu avô obrigava vocês a comerem. Conta essa história até hoje. Acho que por isso ela não é muito chegada em peixe.
- Eu também odeio bagre.
- Nem sei que gosto tem.
- Fica tranquila. Enquanto eu tiver perto, ninguém vai te obrigar a comer bagre.
- Eu sei.
.....
Algum dia de dois mil e três, duas e pouco da tarde.
- Oi, tio.
- Oi, sumida. Tu tá na casa da tua mãe?
- Tô. Acabamos de chegar.
- O Max veio contigo?
- Veio.
- Pergunta pra ele se ele já comeu picanha suína.
- Ele disse que não.
- Vou levar uma aí hoje à noite. Tem cerveja?
- Tem.
- Skol?
- Claro, tio.
- Quer camarão?
- Quero.
- Vou levar teus primos. Prepara tua mãe pra bagunça.
- Pode deixar.
.....
Vinte e três de dezembro de dois mil e quatro.
- Oi, tio.
- Oi, sumida.
- Onde você vai passar o Natal?
- Lá na casa da mãe da tua tia. Aquela bagunça.
- Eu queria fazer o Natal aqui na minha mãe.
- Pra mim tá ótimo. Ela vai gostar.
- Vem todo mundo?
- Claro. Vou fazer um pernil.
- Minha tia vai fazer e você só vai encher o saco que eu sei.
- O tempero é meu.
- E o trabalho é dela.
- Ela gosta.
.....
Abril de dois mil e cinco.
- Oi, tio.
- Oi, sumida.
- Preciso conversar com você uma coisa muito séria.
- Boa ou ruim?
- Boa.
- Tá. Hoje?
- É. Tô aqui na casa da minha mãe. Vem aqui.
- Mais tarde eu passo aí.
...
- Fala logo que eu tô curioso.
- Nós vamos casar.
- Caralho, que legal! Quando?
- Junho ou julho. Só no cartório.
- Parabéns!!!!
Abraços, beijos, lágrimas.
- Tem mais.
- O quê?
- Vamos mudar pra Belo Horizonte. Max será transferido pra lá.
- É uma cidade boa. Vocês vão gostar.
- Esperamos.
Lágrimas.
- Tem mais.
- O quê?
- Eu queria que você fosse meu padrinho.
- Caralho, claro! Hehe. Vou ser teu padrinho duas vezes. De batismo e de casamento.
- Eu sei.
- Vamos comemorar.
- Vamos.
.....
Vinte e cinco de junho de dois mil e cinco, três e pouco da tarde.
- Nem acredito que tu casou.
- Nem eu.
- Lembro do teu batismo, tu não parava de chorar.
- Pelo jeito a síndrome do choro eterno é de família.
- Minha sobrinha preferida casou com um cara legal pra caralho, tá feliz pra caralho e tu não queria que eu chorasse?
- Sou sua única sobrinha, tio.
- E mesmo assim é a preferida.
.....
Trinta e um de outubro de dois mil e cinco, dez e pouquinho da manhã.
- Aconteceu uma coisa muito, muito ruim. Não consigo nem falar.
Choro, soluços, fala entrecortada.
- O que aconteceu, fala, peloamordedeus!
Palavras desconexas, mais choro, mais soluços.
- O que foi, mãe, fala!
- Teu tio morreu. Teve um infarto.
- ....
- Ele só tinha quarenta e nove anos.
- ....
- Eu falei pra ele ir no médico. Ele não ia. Ai, deusdocéu.
- ...
- Meu único irmão... meu único irmão.
Longa pausa, nossos soluços misturados, formando uma música triste, muito triste.
- Tô indo praí, mãe.
.....
Eu não ia escrever nada, mas precisei. Apenas porque tenho a sensação de que se fosse meu próprio pai não ia doer tanto.