9.24.2004

Trem das Onze






Vim de ônibus hoje. Sentei na frente e dormi. Até sonhei. De repente, o cobrador me acorda com um beliscão no braço:

- AAAAAAAAIIIII! Tá doido?

- Você tem cartão?

- Que cartão?

- O bilhete!

- Que bilhete, moço, pelamor... não tô entendendo!

- Bilhete único.

- Não tenho não, vou pagar com dinheiro.

- Então me paga.

- Calma! Só vou descer no Largo da Batata. Tem chão ainda.

- Mas eu vou descer antes.

- Como assim?

- Eu vou descer na Lacerda Franco.

- Você é o cobrador, não pode descer antes.

- Quem disse?

- Achei que estava implícito.

- Estava o que?

- Deixa pra lá.

- Vai me pagar ou não?

- Só quando eu for descer.

- Paga logo, eu tenho um compromisso e preciso descer antes.

- No meio do seu horário de trabalho? Não pode marcar compromisso assim.

- Quem disse?

- Seu chefe deveria ter dito.

- Olhaí o ponto chegando e você me enrolando. Se eu passar do ponto acabo me atrasando.

- Não pago antes. Não pago, não pago.

- Você é muito chata, sabia?

- Sabia. Você também é.

- Desce pela frente então. Ô Zé, a menina de preto aqui vai descer pela frente porque não tem o bilhete.

(Zé) – Tá. Você desce no próximo, né?

- É.

- Não esquece que eu quero um de carne e um de frango com catupiri.

- Você vai descer antes pra comprar pastel?

- Vou.

- Era esse o seu compromisso?

- A feira tem hora pra acabar, sabia?

- Sabia. Vou contigo. Agora deu vontade de um pastel de queijo.

- Eu pago.

- Ok.