9.10.2004

The seeds of love





Jurei que escreveria bastante, mas não deu, sabe? Primeiro porque os cyber cafés daqui são caros demais e eu sou pobre. Segundo porque, prevenida que sou, já trouxe um King meio empoeirado lá de casa, quinhentas e cinquenta e três páginas de literatura semi-assustadora para as massas. Fico ocupada. Perfeito. Se for absolutamente tomada pelo tédio, pensei, ao menos fico com medo. Eu sempre fico com medo dos meus kings, não importa quantos eu leia. Medo é legal. Medo é divertido. Mas eu sou tonta, sabe? Eu nem precisava do King para sentir medo por aqui. Vai ali passar uma semana todinha só com sua mãe, vinte e quatro horas por dia e depois me diz se não foi assustador. Mães são criaturas de outro mundo.


Chegamos aqui na segunda-feira à tarde. Minha mami é muito esperta e, claro, não me disse onde ficaríamos. Eu nem perguntei muita coisa antes de virmos para cá; eu estava devendo um tempo só com ela e paguei minha dívida. E ainda falei, sem medir as conseqüencias: mami, faça tudo como mais lhe agradar, não palpitarei, e farei o que você escolher. Certo, Madre Teresa. Olhaí o resultado.


Minha mami escolheu uma colônia de férias. Mais barato, ela disse. A parada é no meio do mato, literalmente. O terror. Velhos por todos os lados. Não tem uma alma com menos de cinqüenta anos aqui. Velhos com tosse, velhos com bengala, velhos com cabelos roxos. Os velhos te perseguem, porque eles querem jogar buraco com você. Os velhos te perseguem, porque eles querem te mostrar a cicatriz da cirurgia deles. Os velhos te perseguem, porque eles querem que você os ajude a encontrar os óculos que caíram no meio do lago. E nem tente explicar que você não vai entrar no lago de água suja e fedida e gelada só por causa de uns óculos de leitura, porque eles dirão que você é jovem e não ficará doente. Eles dirão, ah, vá lá, não custa nada. E eles querem que você entre de roupa mesmo, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.


A comida não tem sal porque a velharada tem pressão alta. Não existem saleiros nas mesas, para que os velhos não se sintam tentados. Fui obrigada a subornar o garçom com alguns alfajores para que ele me liberasse um pouco de sal, que veio enroladinho num guardanapo. Foi uma operação de guerra para eu pegar o sal. Nem numa boca na favela é tão complicado. Acho que se eu quisesse cocaína seria mais fácil.


Claro, fiz vários passeios que até seriam bacanas se a gente fosse de carro. Viemos de carro, e poderíamos usar o carro para ir aos pontos turísticos, mas nãããããããão. Minha mami cismou que não deveríamos gastar gasolina, e estamos desde segunda andando no maldito trenzinho turístico. No primeiro dia até achei graça, já que o motorista do trenzinho tem um cachorro muito engraçado chamado Peludo que vai lá na frente, em pézinho, latindo vez ou outra. A-há, que divertido, pensei. Mas não é divertido. Experimente ficar uma semana inteira andando de tranzinho turístico para cima e para baixo. Não tem graça nenhuma. O povo na rua te olha com aquela cara de dó. Pensam que você é retardado.


Levei uma cantada de um padre. Uma velha perguntou se eu estava grávida, e diante da negativa, disse que eu deveria fazer uma plástica ou morreria solteira. Fui cercada por um bando de velhos loucos que descobriram que eu trouxe o notebook e queriam ver fotos de mulheres peladas na Internet. Fui atacada por um ganso. Fui obrigada a cuidar de um tiozinho que caiu do trenzinho, mas não morreu e nem se machucou. Carreguei mudas de árvores. Ajudei os velhos com as palavras cruzadas. Ri das piadas. Piquei bifes e descasquei laranjas. Fui simpática e boazinha. Não fumei no quarto e só tomei cerveja na fábrica do Baden Baden porque era degustação. E, mais importante, não reclamei uma única vez.


Pronto, chefe. Paguei meus pecados da encarnação passada, desta e da próxima. Estamos quites agora?


Espero de coração que sim. Não sei se aguentaria outra dessas.



....



Volto amanhã. Ufa.