9.20.2004

I'm just trying to make some sense






Consulto meu ursinho de pelúcia, que é onde guardo meu dinheiro. Não tenho carteira, tenho um ursinho de pelúcia encardido, supostamente projetado para ser um chaveiro, que faz as vezes de carteira, porta documentos, porta níqueis, porta retrato e porta isqueiro. Abro o zíper e examino o conteúdo. Duas fichas de pinball, uma semente de melancia, algumas moedas de dez centavos, uma de cinqüenta, muitas de um. Fome. Muita fome e nenhuma grana. Conto as moedas, que somam um real e vinte e sete centavos. Bom. Poderei comer algo quente. Não quero biscoitos. Quero algo quente. Vou até o supermercado que tem o melhor bolinho de queijo baratinho do universo e pergunto para a menina do balcão: tem bolinho de queijo? A menina nem olha na minha cara. Pergunto novamente, dessa vez mais alto, penso que ela não ouviu. Tem bolinho de queijo? Ela me olha com desprezo, e diz: peraí. Sim, peraí, não só um minutinho, peraí. E com cara de desprezo. Fico lá esperando, já cismei que não quero outra coisa, quero o bolinho de queijo. A menina me ignora novamente e atende alguém que chegou depois de mim, e estava atrás de mim na fila. Fico um tanto constrangida, não entendi o que a menina tem contra mim. Ela atende a pessoa e foge por uma porta. Fico lá esperando, pensando no Seinfeld, mais especificamente no episódio do Soup Nazi. Depois de uns minutos ela volta, e eu lá parada. Digo, dócil, mansa, por favor, eu queria um bolinho de queijo. Digo baixo para não irritar ainda mais a ditadora do balcão, deusmelivre se ela resolve não me dar o bolinho de queijo *...No more soup for you. Next!*. Ela fala alto, como se para todos saberem que eu só tenho grana para um bolinho: vai querer quantos? Digo, mais baixo ainda, com vergonha: um só. Ela pega o bolinho com aquela pinçona e estende para mim, sem um guardanapo nem nada, como se eu fosse comer o bolinho pelando de quente ali mesmo. Digo, ainda baixinho, é para viagem. Ela bufa como uma chaleira e joga o bolinho num saco plástico imenso. Agradeço, levo o bolinho até o caixa, conto minhas moedas, pago e vou para casa. O bolinho é bom e deve ser apreciado com os acompanhamentos corretos: um copo de coca bem gelada, molho barbecue, mostarda escura. Penso que até valeu a pena todo esse esforço. Esquento o bolinho um pouco no microondas para derreter o queijo, ponho num pratinho, pego os molhos, a coca, sento no sofá, ligo a TV e me preparo para uma mordidona no meu bolinho, aquele cheirinho de orégano escapando após a primeira dentada, o queijo esticado, delícia, uma delícia. Ah, os simples prazeres. Abro a boca e mordo o bolinho.

É de calabresa. Detesto calabresa.

Volto ao mercado, vou até o balcão e lá está a menina, com cara de pastel. Digo, de bolinho.

Taco o bolinho mordido na cabeça dela, e digo:

- Eu pedi de queijo, sua filha da puta.

A menina me olha espantada, sem reação, com o bolinho espatifado no cabelo envolto pela redinha, um pouco de massa na orelha direita, um pouco engordurando o uniforme branco. Antes que ela possa dizer algo, viro-me e vou embora.

Volto para casa e tomo minha coca. Ah, os simples prazeres.