9.28.2004

Ou, ainda: um tiro só não vai me derrubar.

É isso.

Só para constar, faço minhas as palavras daquele moço legal e descabelado: ainda não inventaram dinheiro que eu não pudesse ganhar.

9.24.2004

Trem das Onze






Vim de ônibus hoje. Sentei na frente e dormi. Até sonhei. De repente, o cobrador me acorda com um beliscão no braço:

- AAAAAAAAIIIII! Tá doido?

- Você tem cartão?

- Que cartão?

- O bilhete!

- Que bilhete, moço, pelamor... não tô entendendo!

- Bilhete único.

- Não tenho não, vou pagar com dinheiro.

- Então me paga.

- Calma! Só vou descer no Largo da Batata. Tem chão ainda.

- Mas eu vou descer antes.

- Como assim?

- Eu vou descer na Lacerda Franco.

- Você é o cobrador, não pode descer antes.

- Quem disse?

- Achei que estava implícito.

- Estava o que?

- Deixa pra lá.

- Vai me pagar ou não?

- Só quando eu for descer.

- Paga logo, eu tenho um compromisso e preciso descer antes.

- No meio do seu horário de trabalho? Não pode marcar compromisso assim.

- Quem disse?

- Seu chefe deveria ter dito.

- Olhaí o ponto chegando e você me enrolando. Se eu passar do ponto acabo me atrasando.

- Não pago antes. Não pago, não pago.

- Você é muito chata, sabia?

- Sabia. Você também é.

- Desce pela frente então. Ô Zé, a menina de preto aqui vai descer pela frente porque não tem o bilhete.

(Zé) – Tá. Você desce no próximo, né?

- É.

- Não esquece que eu quero um de carne e um de frango com catupiri.

- Você vai descer antes pra comprar pastel?

- Vou.

- Era esse o seu compromisso?

- A feira tem hora pra acabar, sabia?

- Sabia. Vou contigo. Agora deu vontade de um pastel de queijo.

- Eu pago.

- Ok.

9.23.2004

Well, show me the way to the next whiskey bar




Assisti Kill Bill, depois de todo mundo, porque eu sou lerda mesmo, e gostei. Taí, gostei mesmo. Eu gosto do Tarantino. E achei que, em matéria de sangue jorrrando, deixou Freddy X Jason no chinelo - e olha que até soco fazia jorrar sangue nesse filme.

E só estou escrevendo isso porque, por algum motivo inexplicável, durante o filme lembrei-me várias vezes do meu leitor bêbado, que sumiu, não me escreveu mais. Oi, leitor bêbado... você ainda está por aí? Dia desses inda vamos tomar umas biritas juntos.




....


O inferno é aqui. O único blog do universo em que os leitores (assim como essa que vos escreve) são uns bêbados e se orgulham disso.

9.20.2004

I'm just trying to make some sense






Consulto meu ursinho de pelúcia, que é onde guardo meu dinheiro. Não tenho carteira, tenho um ursinho de pelúcia encardido, supostamente projetado para ser um chaveiro, que faz as vezes de carteira, porta documentos, porta níqueis, porta retrato e porta isqueiro. Abro o zíper e examino o conteúdo. Duas fichas de pinball, uma semente de melancia, algumas moedas de dez centavos, uma de cinqüenta, muitas de um. Fome. Muita fome e nenhuma grana. Conto as moedas, que somam um real e vinte e sete centavos. Bom. Poderei comer algo quente. Não quero biscoitos. Quero algo quente. Vou até o supermercado que tem o melhor bolinho de queijo baratinho do universo e pergunto para a menina do balcão: tem bolinho de queijo? A menina nem olha na minha cara. Pergunto novamente, dessa vez mais alto, penso que ela não ouviu. Tem bolinho de queijo? Ela me olha com desprezo, e diz: peraí. Sim, peraí, não só um minutinho, peraí. E com cara de desprezo. Fico lá esperando, já cismei que não quero outra coisa, quero o bolinho de queijo. A menina me ignora novamente e atende alguém que chegou depois de mim, e estava atrás de mim na fila. Fico um tanto constrangida, não entendi o que a menina tem contra mim. Ela atende a pessoa e foge por uma porta. Fico lá esperando, pensando no Seinfeld, mais especificamente no episódio do Soup Nazi. Depois de uns minutos ela volta, e eu lá parada. Digo, dócil, mansa, por favor, eu queria um bolinho de queijo. Digo baixo para não irritar ainda mais a ditadora do balcão, deusmelivre se ela resolve não me dar o bolinho de queijo *...No more soup for you. Next!*. Ela fala alto, como se para todos saberem que eu só tenho grana para um bolinho: vai querer quantos? Digo, mais baixo ainda, com vergonha: um só. Ela pega o bolinho com aquela pinçona e estende para mim, sem um guardanapo nem nada, como se eu fosse comer o bolinho pelando de quente ali mesmo. Digo, ainda baixinho, é para viagem. Ela bufa como uma chaleira e joga o bolinho num saco plástico imenso. Agradeço, levo o bolinho até o caixa, conto minhas moedas, pago e vou para casa. O bolinho é bom e deve ser apreciado com os acompanhamentos corretos: um copo de coca bem gelada, molho barbecue, mostarda escura. Penso que até valeu a pena todo esse esforço. Esquento o bolinho um pouco no microondas para derreter o queijo, ponho num pratinho, pego os molhos, a coca, sento no sofá, ligo a TV e me preparo para uma mordidona no meu bolinho, aquele cheirinho de orégano escapando após a primeira dentada, o queijo esticado, delícia, uma delícia. Ah, os simples prazeres. Abro a boca e mordo o bolinho.

É de calabresa. Detesto calabresa.

Volto ao mercado, vou até o balcão e lá está a menina, com cara de pastel. Digo, de bolinho.

Taco o bolinho mordido na cabeça dela, e digo:

- Eu pedi de queijo, sua filha da puta.

A menina me olha espantada, sem reação, com o bolinho espatifado no cabelo envolto pela redinha, um pouco de massa na orelha direita, um pouco engordurando o uniforme branco. Antes que ela possa dizer algo, viro-me e vou embora.

Volto para casa e tomo minha coca. Ah, os simples prazeres.

It's no problem of mine but it's a problem I find




Tem dia que, simplesmente, não dá. Decobri que meu cérebro funciona dia sim, dia não. Às vezes dia sim, dias não. Dia sim, semana não. Às vezes demora pra pegar, às vezes emperra, às vezes pifa. Não adianta. Eu chego aqui já com tudo esquematizadinho na cabeça, o que preciso fazer, para quem preciso ligar, as contas que preciso pagar, os planos que preciso por em prática, umas histórias pra escrever, tudo certinho, tudo pronto, é só fazer.

Aí eu chego aqui no trampo, sento, olho para a tela e... nada acontece. Pane. Esqueço tudo. Acho que tenho preguiça mental. Isso existe? Alguém mais por aí tem preguiça mental? Ou é isso ou vim mesmo com defeito de fabricação, como minha mami costuma dizer.




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Semana passada foi assim, cinco dias com meu cérebro de férias. Espero que essa seja melhor.

9.10.2004

The seeds of love





Jurei que escreveria bastante, mas não deu, sabe? Primeiro porque os cyber cafés daqui são caros demais e eu sou pobre. Segundo porque, prevenida que sou, já trouxe um King meio empoeirado lá de casa, quinhentas e cinquenta e três páginas de literatura semi-assustadora para as massas. Fico ocupada. Perfeito. Se for absolutamente tomada pelo tédio, pensei, ao menos fico com medo. Eu sempre fico com medo dos meus kings, não importa quantos eu leia. Medo é legal. Medo é divertido. Mas eu sou tonta, sabe? Eu nem precisava do King para sentir medo por aqui. Vai ali passar uma semana todinha só com sua mãe, vinte e quatro horas por dia e depois me diz se não foi assustador. Mães são criaturas de outro mundo.


Chegamos aqui na segunda-feira à tarde. Minha mami é muito esperta e, claro, não me disse onde ficaríamos. Eu nem perguntei muita coisa antes de virmos para cá; eu estava devendo um tempo só com ela e paguei minha dívida. E ainda falei, sem medir as conseqüencias: mami, faça tudo como mais lhe agradar, não palpitarei, e farei o que você escolher. Certo, Madre Teresa. Olhaí o resultado.


Minha mami escolheu uma colônia de férias. Mais barato, ela disse. A parada é no meio do mato, literalmente. O terror. Velhos por todos os lados. Não tem uma alma com menos de cinqüenta anos aqui. Velhos com tosse, velhos com bengala, velhos com cabelos roxos. Os velhos te perseguem, porque eles querem jogar buraco com você. Os velhos te perseguem, porque eles querem te mostrar a cicatriz da cirurgia deles. Os velhos te perseguem, porque eles querem que você os ajude a encontrar os óculos que caíram no meio do lago. E nem tente explicar que você não vai entrar no lago de água suja e fedida e gelada só por causa de uns óculos de leitura, porque eles dirão que você é jovem e não ficará doente. Eles dirão, ah, vá lá, não custa nada. E eles querem que você entre de roupa mesmo, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.


A comida não tem sal porque a velharada tem pressão alta. Não existem saleiros nas mesas, para que os velhos não se sintam tentados. Fui obrigada a subornar o garçom com alguns alfajores para que ele me liberasse um pouco de sal, que veio enroladinho num guardanapo. Foi uma operação de guerra para eu pegar o sal. Nem numa boca na favela é tão complicado. Acho que se eu quisesse cocaína seria mais fácil.


Claro, fiz vários passeios que até seriam bacanas se a gente fosse de carro. Viemos de carro, e poderíamos usar o carro para ir aos pontos turísticos, mas nãããããããão. Minha mami cismou que não deveríamos gastar gasolina, e estamos desde segunda andando no maldito trenzinho turístico. No primeiro dia até achei graça, já que o motorista do trenzinho tem um cachorro muito engraçado chamado Peludo que vai lá na frente, em pézinho, latindo vez ou outra. A-há, que divertido, pensei. Mas não é divertido. Experimente ficar uma semana inteira andando de tranzinho turístico para cima e para baixo. Não tem graça nenhuma. O povo na rua te olha com aquela cara de dó. Pensam que você é retardado.


Levei uma cantada de um padre. Uma velha perguntou se eu estava grávida, e diante da negativa, disse que eu deveria fazer uma plástica ou morreria solteira. Fui cercada por um bando de velhos loucos que descobriram que eu trouxe o notebook e queriam ver fotos de mulheres peladas na Internet. Fui atacada por um ganso. Fui obrigada a cuidar de um tiozinho que caiu do trenzinho, mas não morreu e nem se machucou. Carreguei mudas de árvores. Ajudei os velhos com as palavras cruzadas. Ri das piadas. Piquei bifes e descasquei laranjas. Fui simpática e boazinha. Não fumei no quarto e só tomei cerveja na fábrica do Baden Baden porque era degustação. E, mais importante, não reclamei uma única vez.


Pronto, chefe. Paguei meus pecados da encarnação passada, desta e da próxima. Estamos quites agora?


Espero de coração que sim. Não sei se aguentaria outra dessas.



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Volto amanhã. Ufa.

9.08.2004

Estou escrevendo direto de Campos do Jordão, num calor do cacete, numa salinha espremida sem ar-condicionado com computadores velhos que possuem todos os spywares do sistema solar e que travam a todo clique e pelos quais o menino com barbicha de bode aqui tem a pachorra de me cobrar dez reais a hora de uso.


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Sim, meu feriado está sendo muito legal.

9.03.2004

He´s just a poor boy from a poor family






Pobre só se fode. É uma bosta. Quando a bonitona aqui achou que finalmente ia conhecer a Suíça Brasileira e mandar ver foundues de todos os tipos, cores e sabores, sopas no pão italiano, chocolate com conhaque e vinhos daqueles que esquentam até defunto, devidamente patrocinados por minha amada mamicota fofa fofíssima, olhaí a merda do calor que anda fazendo. Nós não estamos no inverno? São Pedro filho da puta. Pobre só se fode mesmo. Vamos passar a semana que vem inteirinha, eu e minha mami, num calor do inferno. Olha só:


http://br.weather.com/weather/local/BRXX0055



E esse tempinho de cú ainda promete chuva. Vai se foder.

Todas as minhas fantasias de pobre já foram por água abaixo. Lareira? Nem pensar, ou vamos voltar de lá defumadas. Fondue? Não vai rolar. Já posso até me ver suando em bicas enquanto tento engolir a gororoba fumegante. Cachecóis bacanas, botas deslumbrantes, casacos de lã chiquérrimos? Serão substituídos por Havaianas, as Legítimas e muito elástico e presilha para segurar essa cabeleira enorme que insisto em cultivar. Acho que nem vou levar máquina fotográfica. Imagina a vergonha de mostrar as fotos depois. Tem certeza que cê tava na serra? Cê tá com uma aparência, assim, meio grelhada... Que merda. Que graça tem ir para Campos do Jordão com calor? Pobre só se fode mesmo.



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Pelo menos terei tempo para escrever de lá. Não vai ter porra nenhuma para fazer mesmo.