Pain for pleasure, Satan is his name!
Outro dia recebi um e-mail, pela milésima vez, daqueles de como é difícil ser mulher. Aquelas coisas de você sorrir numa reunião de negócios enquanto uma cólica doida te rasga como uma bazuca, algo assim.
E hoje passei por uma que engrossaria fácil esse spam.
Foi o seguinte: lembra das calças novas que minha mami fofa fofíssima me deu no meu aniversário? Então, uma delas eu lavei e encolheu. Nunca vi isso acontecer. Nunca ouvi ninguém reclamando de nada parecido. Nessas horas eu penso, deus, por que comigo? Mas eu sou teimosa e hoje resolvi que ia usar a calça mesmo assim. Que idéia de rato a minha.
Saí meio manca de casa, já. Eu deveria ter voltado nesse momento e colocado uma calça de moletom bem larga e velha, mas nããããããão. Cismei que ia usar a calça minúscula do inferno e estava decidida a não deixar nada me impedir. E eis que ao tentar descer o primeiro degrau, não deu. Simplesmente não deu. O joelho não dobrava. Me senti uma picanha embalada à vácuo. Pensa que eu desisti? Nah. Fui descendo a escada aos pulinhos. Eu poderia ter quebrado uma perna, mas não ia desfazer a produção só porque a calça não me serve mais. O porteiro já tem certeza absoluta que eu sou doida, porque a mulher dele que faz faxina lá em casa de vez em quando me contou que ele tem um certo medo de mim. Imagina agora que ele me viu descendo a escada de pulinhos e com uma expressão de dor na cara? Tenho certeza que em breve vou encontrar uma cartinha do condomínio nos convidando, eu e Tito, a nos retirarmos do recinto.
Cheguei à rua satisfeita por ter sido tão esperta. Degrau, pulinhos. Pensei cá comigo, lá no escritório eu subo de elevador mesmo, não vai ser tão ruim.
Claro que ia ser ruim. Esqueci do ônibus.
Você não tem idéia do malabarismo que fiz para subir no ônibus. O motorista, impaciente, quase arrancou comigo pendurada na porta, porque eu tentava pular para o ônibus segurando nas barrinhas e minhas mãos escorregavam, e eu tentava dar outro pulo e minhas mãos escorregavam de novo e os carros atrás buzinavam. Que mico. O cara resmungando um dá pra ser ou tá difícil?, e eu lá fazendo um rapel para subir no ônibus. Quando finalmente consegui, não tinha uma só pessoa que não estivesse rindo de mim. Olha que situação.
Fingi que não era comigo, afinal, o importante era eu estar linda na calça, e eu estava mesmo. Ok, então cuidem de suas vidinhas patéticas e feiosas que eu estou muito bem na minha calça minúscula, obrigada. Claro que fui em pé, não dava nem para cogitar a hipótese de sentar. Pensei de novo cá comigo, lá no escritório eu tiro essa merda (sim, a calça linda e minúscula já tinha virado “essa merda”, calça do inferno, se o inferno realmente existe é dentro dessa calça que as pessoas ficam). Eu não conseguia respirar direito, mas tudo bem, *Max, olha pra lá agora* o menino lindo que pega ônibus todo dia comigo até deu uma olhadela para a minha bunda e isso amenizou um pouco o sofrimento.
Fui sacolejando do jeito que dava, tentando me concentrar em paisagens, a Guarda do Embaú, bolo de chocolate - não, se eu não tivesse comido tanto bolo de chocolate eu não estaria sofrendo tando na calça do inferno – gelatina diet, minha gata ronronando, estava até funcionando, aí toca meu celular. Cristo. Mais um mico para tentar tirar o dito da bolsa (gigantesca, não sei porque não me livro dessa bolsa gigantesca). Era uma cliente, chata, mas boa pagadora.
- Você pode vir aqui hoje?
Comecei a suar frio. A sala da cliente chata fica a alguns lances de escada do solo. Não dava para dar uma de doida e subir a escada do cliente pulando, mas eu preciso do dinheiro, nossa, como eu preciso do dinheiro.
- Claro, estou indo.
Oh, boy. Tive que subir em mais dois outros ônibus, mas melhor nem comentar. Só vou dizer que num deles o cobrador perdeu a paciência comigo e veio me içar, literalmente.
Cheguei na cliente rezando fervorosamente para que naquele dia ela estivesse na sala de baixo. Minhas preces foram atendidas, ela estava. Tentei até dar um suspiro de alívio, mas só consegui soltar um gincho esganiçado. Ela sorriu, estava simpática.
- Senta aí que o que temos para conversar vai demorar.
Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto. Não tinha a menor possibilidade de eu sentar, como eu ia dizer isso a ela? Pensei em pedir para ir ao banheiro e sair correndo para casa. Talvez nem pedir para ir ao banheiro, simplesmente virar as costas e sair correndo. Correndo não é bem a palavra, dadas as circunstâncias. Provavelmente eu estaria bem mais próxima daquele povo que anda de pernas de pau.
- Estou bem em pé, obrigada. *inda querendo ser educadinha*
- Sentaí, menina, deixa de frescura. *porque você não vai se foder?*
- Não consigo. *a verdade dói, mas tem de ser dita*
- Hã? *eu também perguntaria hã?*
- Não dá, minha calça encolheu. *...*
- Dá pra ver mesmo. Alguém te jogou do vigésimo andar pra você entrar nessa coisa? *eu já te mandei ir se foder hoje?*
- Haha. *essa foi a risada mais forçada que dei em toda a minha vida*
- Tá bom, quer ficar de pé, fica. *finalmente. precisava me humilhar?*
Na verdade, precisava. Tem um vidrão nessa sala da cliente, e eu me olhei de perfil por um segundo. Eu parecia um provolone desses que ficam amarrados com uma cordinha em empório. Credo. Que idéia de rato. Entendi porque o menino lindo do ônibus olhou para a minha bunda: ele não estava acreditando como eu tinha ido parar dentro daquela calça. Alguns comentários de algumas pessoas começaram a passar pela minha cabeça, meio enevoados, já que eu deveria estar com falta de oxigenação para entender direito, mas percebi que a idéia central era faça-nos um favor e poupe nossos olhos dessa aberração, use uma calça do seu número.
Ok, resto do mundo. Vocês venceram.
Pedi licença para ir ao banheiro e abri o zíper. Foi um semi-orgasmo. O ar entrou pelos meus pulmões como nunca, e percebi que a visão turva não era cansaço. Voltei com o zíper aberto mesmo, a calça não ia cair. A cliente, se percebeu, não falou nada. Mas ficou o resto da reunião com um risinho sacana no canto da boca.
E agora estou aqui, entalada nessa coisa demoníaca. Mas sou uma menina de sorte. Max está aqui e me levará para casa – talvez eu tenha que ir na caçamba do carro dele, mas tudo bem. Max me ajudará com a tesoura quando chegarmos em casa. Juntos impediremos que a calça do inferno faça mal a mais alguém. Essa coisa tem que ser destruída.
....
PS: *Piada interna minha e de Max - Jerry says: This... thing... has got to be stopped!*
Outro dia recebi um e-mail, pela milésima vez, daqueles de como é difícil ser mulher. Aquelas coisas de você sorrir numa reunião de negócios enquanto uma cólica doida te rasga como uma bazuca, algo assim.
E hoje passei por uma que engrossaria fácil esse spam.
Foi o seguinte: lembra das calças novas que minha mami fofa fofíssima me deu no meu aniversário? Então, uma delas eu lavei e encolheu. Nunca vi isso acontecer. Nunca ouvi ninguém reclamando de nada parecido. Nessas horas eu penso, deus, por que comigo? Mas eu sou teimosa e hoje resolvi que ia usar a calça mesmo assim. Que idéia de rato a minha.
Saí meio manca de casa, já. Eu deveria ter voltado nesse momento e colocado uma calça de moletom bem larga e velha, mas nããããããão. Cismei que ia usar a calça minúscula do inferno e estava decidida a não deixar nada me impedir. E eis que ao tentar descer o primeiro degrau, não deu. Simplesmente não deu. O joelho não dobrava. Me senti uma picanha embalada à vácuo. Pensa que eu desisti? Nah. Fui descendo a escada aos pulinhos. Eu poderia ter quebrado uma perna, mas não ia desfazer a produção só porque a calça não me serve mais. O porteiro já tem certeza absoluta que eu sou doida, porque a mulher dele que faz faxina lá em casa de vez em quando me contou que ele tem um certo medo de mim. Imagina agora que ele me viu descendo a escada de pulinhos e com uma expressão de dor na cara? Tenho certeza que em breve vou encontrar uma cartinha do condomínio nos convidando, eu e Tito, a nos retirarmos do recinto.
Cheguei à rua satisfeita por ter sido tão esperta. Degrau, pulinhos. Pensei cá comigo, lá no escritório eu subo de elevador mesmo, não vai ser tão ruim.
Claro que ia ser ruim. Esqueci do ônibus.
Você não tem idéia do malabarismo que fiz para subir no ônibus. O motorista, impaciente, quase arrancou comigo pendurada na porta, porque eu tentava pular para o ônibus segurando nas barrinhas e minhas mãos escorregavam, e eu tentava dar outro pulo e minhas mãos escorregavam de novo e os carros atrás buzinavam. Que mico. O cara resmungando um dá pra ser ou tá difícil?, e eu lá fazendo um rapel para subir no ônibus. Quando finalmente consegui, não tinha uma só pessoa que não estivesse rindo de mim. Olha que situação.
Fingi que não era comigo, afinal, o importante era eu estar linda na calça, e eu estava mesmo. Ok, então cuidem de suas vidinhas patéticas e feiosas que eu estou muito bem na minha calça minúscula, obrigada. Claro que fui em pé, não dava nem para cogitar a hipótese de sentar. Pensei de novo cá comigo, lá no escritório eu tiro essa merda (sim, a calça linda e minúscula já tinha virado “essa merda”, calça do inferno, se o inferno realmente existe é dentro dessa calça que as pessoas ficam). Eu não conseguia respirar direito, mas tudo bem, *Max, olha pra lá agora* o menino lindo que pega ônibus todo dia comigo até deu uma olhadela para a minha bunda e isso amenizou um pouco o sofrimento.
Fui sacolejando do jeito que dava, tentando me concentrar em paisagens, a Guarda do Embaú, bolo de chocolate - não, se eu não tivesse comido tanto bolo de chocolate eu não estaria sofrendo tando na calça do inferno – gelatina diet, minha gata ronronando, estava até funcionando, aí toca meu celular. Cristo. Mais um mico para tentar tirar o dito da bolsa (gigantesca, não sei porque não me livro dessa bolsa gigantesca). Era uma cliente, chata, mas boa pagadora.
- Você pode vir aqui hoje?
Comecei a suar frio. A sala da cliente chata fica a alguns lances de escada do solo. Não dava para dar uma de doida e subir a escada do cliente pulando, mas eu preciso do dinheiro, nossa, como eu preciso do dinheiro.
- Claro, estou indo.
Oh, boy. Tive que subir em mais dois outros ônibus, mas melhor nem comentar. Só vou dizer que num deles o cobrador perdeu a paciência comigo e veio me içar, literalmente.
Cheguei na cliente rezando fervorosamente para que naquele dia ela estivesse na sala de baixo. Minhas preces foram atendidas, ela estava. Tentei até dar um suspiro de alívio, mas só consegui soltar um gincho esganiçado. Ela sorriu, estava simpática.
- Senta aí que o que temos para conversar vai demorar.
Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto. Não tinha a menor possibilidade de eu sentar, como eu ia dizer isso a ela? Pensei em pedir para ir ao banheiro e sair correndo para casa. Talvez nem pedir para ir ao banheiro, simplesmente virar as costas e sair correndo. Correndo não é bem a palavra, dadas as circunstâncias. Provavelmente eu estaria bem mais próxima daquele povo que anda de pernas de pau.
- Estou bem em pé, obrigada. *inda querendo ser educadinha*
- Sentaí, menina, deixa de frescura. *porque você não vai se foder?*
- Não consigo. *a verdade dói, mas tem de ser dita*
- Hã? *eu também perguntaria hã?*
- Não dá, minha calça encolheu. *...*
- Dá pra ver mesmo. Alguém te jogou do vigésimo andar pra você entrar nessa coisa? *eu já te mandei ir se foder hoje?*
- Haha. *essa foi a risada mais forçada que dei em toda a minha vida*
- Tá bom, quer ficar de pé, fica. *finalmente. precisava me humilhar?*
Na verdade, precisava. Tem um vidrão nessa sala da cliente, e eu me olhei de perfil por um segundo. Eu parecia um provolone desses que ficam amarrados com uma cordinha em empório. Credo. Que idéia de rato. Entendi porque o menino lindo do ônibus olhou para a minha bunda: ele não estava acreditando como eu tinha ido parar dentro daquela calça. Alguns comentários de algumas pessoas começaram a passar pela minha cabeça, meio enevoados, já que eu deveria estar com falta de oxigenação para entender direito, mas percebi que a idéia central era faça-nos um favor e poupe nossos olhos dessa aberração, use uma calça do seu número.
Ok, resto do mundo. Vocês venceram.
Pedi licença para ir ao banheiro e abri o zíper. Foi um semi-orgasmo. O ar entrou pelos meus pulmões como nunca, e percebi que a visão turva não era cansaço. Voltei com o zíper aberto mesmo, a calça não ia cair. A cliente, se percebeu, não falou nada. Mas ficou o resto da reunião com um risinho sacana no canto da boca.
E agora estou aqui, entalada nessa coisa demoníaca. Mas sou uma menina de sorte. Max está aqui e me levará para casa – talvez eu tenha que ir na caçamba do carro dele, mas tudo bem. Max me ajudará com a tesoura quando chegarmos em casa. Juntos impediremos que a calça do inferno faça mal a mais alguém. Essa coisa tem que ser destruída.
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PS: *Piada interna minha e de Max - Jerry says: This... thing... has got to be stopped!*


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