6.29.2004

Mulher de fases





Lembra quando eu dizia que meu roommate gostava de cozinhar? Rá.

Lembra quando eu dizia que meu roommate era limpinho? Rará.

Como eu sou ingênua.

Vou direto ao assunto: o cara é muito porco, muito mesmo, e come qualquer coisa que esteja na geladeira, qualquer coisa mesmo. É assustador.

Eu quis logo dar uma de boa anfitriã quando o boneco se mudou, e me fodi. O cara se acostumou mal. Quer dizer, além de tudo a bicha é preguiçosa. Eu sou preguiçosa, mas conheço o limite entre a preguiça e um vestiário masculino. É isso que minha casa parece ultimamente, um vestiário masculino. Me sinto na casa da Carol. Para você ter uma idéia, tem um sapato de camurça totalmente embolorado no tanque de lavar roupas. Totalmente embolorado e com cheiro de peixe podre. Credo. O cara faz café e o café vaza da garrafa, escorre pela pia e empapa o resto da farofa que caiu do prato dele e que, claro, ele não se preocupou em limpar. Ele se importa? Nah. O cara toma banho e escorre água pelo chão do banheiro porque o box tem defeito mesmo, aí ele pisoteia tudo com o chinelo imundo dele e ainda sai fazendo pegadas pretas de lama pela casa. Fica uma maçaroca de sujeira e cabelos e pelos de gato e pelos de viado. Ele passa um paninho com Veja? Nah. O cara quebra meu saleiro lindo e chique que eu ganhei da minha mami fofa fofíssima e espalha sal por toda a cozinha. Inclusive em cima da louça que está no escorredor. Ele recolhe o sal do chão e lava a louça novamente? Nah. Fui pegar um copo na manhã seguinte à quebra do saleiro e o copo estava cristalizado. Até eu entender o que tinha acontecido, imagina as coisas que pensei...

E a bicha come, hein? Nunca vi nada assim. Sério. Eu e Max apelidamos o moçoilo de “A Draga”. Nem o Adriano é assim. E olha que o Adriano só não come comida coreana porque ele acha que todos os pratos são à base de cachorro. Logo que A Draga se mudou lá pra casa, eu fiquei meio com dó porque ele estava num lugar estranho, e tal, e fiz várias comidas deliciosas. E eu não sei fazer comida pequena, então, no dia seguinte, eu já ia para casa toda afoita esperando jantar o rango que eu tinha feito no dia anterior. Falooooou. A Draga chegava antes. Nunca tinha nada, e eu fui começando a ficar meio puta da vida. Aí parei de fazer comidas, e A Draga não pareceu se importar. Aí nunca tinha absolutamente nada para comer. Nadica de nada, porque até a margarina que eu uso para fazer um macarrãozinho de hospital na hora do desespero tinha acabado. A Draga deve ter comido margarina de colher, porque não vejo um pão por ali há dois meses. Tive que pedir para A Draga cozinhar alguma coisa, afinal, ele está de férias da faculdade e não faz absolutamente nada o dia todo. A comida ficou um tanto salgada. Até minha Coca-Cola ele ataca e isso é um vício caro, viu? Difícil de manter. Mas A Draga não parece se importar e toma a Coca-Cola alheia sem um pingo de remorso.

Mas, apesar de tudo isso, não sou uma pessoa mesquinha e estava achando até um tanto divertida essa situação.

E eis que veio a gota d´água.

O filho da puta bateu uma punheta durante o banho e deixou PORRA POR TODA A BANHEIRA. Essa foi demais.

Tivemos que ter uma conversa. Falei bem calminha porque eu sou assim mesmo e quanto mais puta da vida, mais calma eu pareço. Chamei-o ontem à noite e falei tudo o que estava engasgado. Falei sobre a porquice, o sapato apodrecendo, minha Coca-Cola, as pegadas de lama. Pedi para que ele abrisse a janela do banheiro após o banho e ensinei-o a usar a máquina de lavar roupas (acabaram-se duas caixas de sabão em pó em menos de duas semanas, aí comecei a desconfiar que ele não sabe para que serve a medida dentro da lata). Falei sobre dividir a função de cozinheira e a de faxineira. Até aí tudo bem, ele concordou, pediu desculpas, disse que homem é assim mesmo e que ele tentaria melhorar. Me agradeceu por ter dito o que me incomodava. Fiquei com um remorso do caralho. Como eu pude ser tão malvada com um pobre rapazinho desamparado que está longe da família, e por isso mesmo, é um pouco confuso? Como eu sou má. Já estava começando a pensar no que fazer para evitar minha ida non-stop para o inferno.

Como a conversa estava agradável (na medida do possível) e muito adulta, resolvi falar da porra inadequada que vi quando fui tomar banho.

A bicha virou bicho. Ai, que trocadilho infame. Mas nada expressaria tão bem a reação do meu roommate. Ele gritava comigo: VOCÊ ACHA QUE EU PRECISO DISSO? SÓ PORQUE EU ESTOU SEM NAMORADO VOCÊ ACHA QUE EU FICO O DIA INTEIRO BATENDO PUNHETA? Cristo. Eu tentava explicar que o problema não era a punheta, que todo mundo bate punheta, eu bato punheta, Max bate punheta, às vezes juntos, e que isso é ótimo, e que o problema era ele ter esporrado a banheira inteira e nem se preocupado em jogar uma agüinha com o chuveirinho. E imaginava o que os vizinhos estariam achando dessa discussão. VOCÊ ACHA QUE SÓ PORQUE EU SOU GAY EU FICO BATENDO PUNHETA O DIA TODO? PENSA QUE EU NÃO TENHO NADA MELHOR PARA FAZER? Minha paciência acabou bem aí, nessa última frase. Ninguém tinha falado absolutamente nada sobre estar sem namorado, ser gay, ficar o dia todo batendo punheta e muito menos sobre ter mais o que fazer. Decidi que não ia levar essa baboseira adiante e mandei, num daqueles lampejos de lucidez e acidez que só tenho a cada ano: PELO MENOS BOTA UMA CAMISINHA. O cara esqueceu o que estava falando e teve um acesso de riso. Fui rapidinho para o meu quarto. Eu, hein? Além de tudo a bicha é doida. Ouvi-o falando sozinho, resmungando, por mais uns quinze minutos e depois entrando no quarto. Deve ter ido pensar no que fez.





....




Hoje de manhã, eu já estava quase no ponto de ônibus quando sinto uma mão no meu ombro. Quase gritei TARADO! de novo (preciso mudar o repertório urgente urgentíssimo). Era A Draga, meio ofegante, dizendo que não tinha conseguido dormir porque havia mentido para mim e gritado comigo ainda por cima *não conseguiu dormir o caralho, roncou feito um porco a noite toda, quem não dormiu fui eu*. Eu nem falei nada. Na verdade já tinha até passado minha bronca com ele, mas resolvi me fazer de vítima mais um pouquinho. Eu disse que tinha ficado muito chateada com a reação dele. Ele falou que realmente tinha sido ele *em que momento havia alguma dúvida sobre ter sido ele? organicamente falando, eu é que não poderia ter sido*, e só tinha tido um chilique porque tinha ficado extremamente constrangido por eu ter chamado a atenção dele *pensei que ele ia falar “fiquei constrangido porque você me deu um esporro”, ia ser hilário*. Eu fiquei com uma cara assim meio de magoada. Ele virou-se e foi embora. E eu fui rindo sozinha pegar meu ônibus.


Espero que ele não se esqueça da conversa que antecedeu o momento tenho-problemas-com-minha-homossexualidade-e-estou-paranóico-porque-não-tenho-namorado-e-nem-emprego-e-desconto-em-quem-estiver-na-frente. Quero minhas próximas Coca-Colas intactas, ou o negócio vai ficar feio. Ando violenta ultimamente. Cuidado comigo.