Just a perfect day
Tudo começou cedo, cedinho, eu ainda estava dormindo. Achei ter ouvido o interfone (que na verdade era o telefone) e levantei completamente dormindo para atender. Depois de uma inútil discussão com o porteiro (o que foi?... nada...você quer falar comigo?...não, você quer falar comigo?...você que tocou aqui!...não você que tocou aqui!) percebi que não era mesmo o interfone tocando, e aproveitei que já tinha levantado mesmo para tomar uma Coca. Abri a geladeira, peguei a Coca e vi assim, de relance, um vulto passando à minha direita. Fechei a geladeira e os olhos e comecei a rezar. Porque eu sou assim mesmo, quando fico com medo, rezo, embora eu não saiba rezar direito e misture os paisnossos e avesmarias numa barafunda só, e sempre esqueço do amém.
Abri os olhos e não tinha ninguém na cozinha. Claro, na cozinha da minha casa não cabem duas pessoas de uma vez só. Até cabem, mas aí não se abre qualquer porta ou gaveta. Enfim. Fui na pontinha dos pés até a porta do quartinho das bagunças, tudo escuro. Já estava respirando aliviada quando pula um marmanjo de uns dois metros de altura na minha frente:
- Oi!
Ai, meu coração. Se eu não era cardíaca, fiquei. Cristo, que susto.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!
Pronto, acordei o prédio todo. Eram umas cinco da manhã.
- Tarado! Tarado! Tito, Tito, tem um tarado aqui! Corre aqui!
Tarado? TARADO? Cara, de onde eu tirei isso? O cara me olhava meio espantado, meio rindo. Acho que nem ele acreditou que alguém ainda grita “tarado!” quando vê um estranho em casa. Joguei a Coca nele, claro, eu estava histérica. Tito veio correndo, me agarrou, e tapou minha boca. Eu só via um terrível monstro de dois metros de altura olhando desolado para a mancha de Coca na camiseta branca.
Aí Tito me olhou com cara de quem “acabou o escândalo?” e eu fiz que sim com a cabeça. Ele me soltou e me apresentou o terrível monstro:
- Esse é o Mateus.
Que vergonha. Eu sou dramática demais, não sei porque sou assim. Na minha família todo mundo é comportado, comedido, fala baixo. E eu saí destrambelhada desse jeito. Sou um eterno personagem de novela mexicana. É impossível que eu seja filha dos meus pais, acho que sou adotada.
E também acho que acabei com o romance do meu roommate. Imagina só a próxima vez que Tito convidar Mateus para ir à nossa casa: mas aquela doida vai estar lá?
Sorri envergonhada e fui para o meu quarto. Nem tive coragem de falar com o menino.
...
Depois desse puta susto, ainda tentei dormir, mas claro que não consegui. Levantei de novo umas seis e meia, me arrumei e vim para o trabalho. Pensei até que talvez tivesse sido uma coisa boa, assim eu chegaria cedo, leria os milhares de e-mails atrasados, arrumaria minha mesa. Fui feliz para o ponto esperar meu ônibus.
O ônibus estava vazio, e isso me deixou mais feliz ainda. Sentei no banco alto, porque sentar no banco alto é muito mais legal, e pensei até em dormir.
Mas não, definitivamente meu dia não estava propício.
Senta um cara do meu lado. Horrível, o cara. Muito feio. Se fosse bonitinho, eu até ia abstrair o fato de O ÔNIBUS INTEIRO ESTAR VAZIO e o fulano resolver SENTAR DO MEU LADO. Mas o cara era o mapa do inferno. Fiquei olhando pela janela, na esperança de que ele não falasse comigo. Tadinha de mim. O cara não só falou, como mandou PIOR CANTADA DE TODOS OS TEMPOS.
- Ei, eu tenho aqui um cd da Tati Quebra-Barraco, quer ouvir comigo?
Ô meu filho, pelamordedeus, o que diabos é Tati Quebra-Barraco? Não precisa explicar, eu não quero saber.
- Nã, brigada.
- Ah, vai. Você tá quase dormindo.
E isso é motivo para ouvir uma música de uma pessoa que se auto-intitula Quebra-Barraco? Tem dó. Nem respondi e levantei, fui sentar perto do cobrador. Ando esperta, ultimamente. Depois da história do caolho, acho melhor ficar perto de homens defensores de mocinhas indefesas.
Pelo menos o cara desistiu. De mim, claro. Tinha mais uma outra menina no ônibus e ele foi lá. Além de feio é chato.
...
Mas meu dia bizarro não podia parar por aí. Ainda tem mais.
O aspirador de pó da tia da limpeza chupou meu título de eleitor. Acho que a tia fez de propósito. Pedi para ela me entregar quando for jogar o pó fora, mas acho que ela não vai entregar porra nenhuma. Ela não gosta de mim. Só porque eu falei que o café dela é ruim. Eu, hein, esse povo é muito sensível. Como eu vou votar agora?
Veio um cara aqui entregar uma pizza. Quem pede pizza às duas da tarde? O Adriano ficou discutindo lá com ele, que nós não pedimos, e tal, mas o cara insistia que fomos nós que pedimos, confirmou endereço, disse que se nós devolvessemos sairia do bolso dele, bla bla bla. O Adriano ficou com dó e pagou pela pizza. Eu particularmente acho que é uma estratégia. A pizzaria manda um moleque com cara de coitado nos escritórios da região, alguém sempre fica com dó e paga pela pizza. Estelionato, escuta o que eu estou falando. O Golpe da Pizza.
Pelo menos é boa, a pizza.
Tudo começou cedo, cedinho, eu ainda estava dormindo. Achei ter ouvido o interfone (que na verdade era o telefone) e levantei completamente dormindo para atender. Depois de uma inútil discussão com o porteiro (o que foi?... nada...você quer falar comigo?...não, você quer falar comigo?...você que tocou aqui!...não você que tocou aqui!) percebi que não era mesmo o interfone tocando, e aproveitei que já tinha levantado mesmo para tomar uma Coca. Abri a geladeira, peguei a Coca e vi assim, de relance, um vulto passando à minha direita. Fechei a geladeira e os olhos e comecei a rezar. Porque eu sou assim mesmo, quando fico com medo, rezo, embora eu não saiba rezar direito e misture os paisnossos e avesmarias numa barafunda só, e sempre esqueço do amém.
Abri os olhos e não tinha ninguém na cozinha. Claro, na cozinha da minha casa não cabem duas pessoas de uma vez só. Até cabem, mas aí não se abre qualquer porta ou gaveta. Enfim. Fui na pontinha dos pés até a porta do quartinho das bagunças, tudo escuro. Já estava respirando aliviada quando pula um marmanjo de uns dois metros de altura na minha frente:
- Oi!
Ai, meu coração. Se eu não era cardíaca, fiquei. Cristo, que susto.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!
Pronto, acordei o prédio todo. Eram umas cinco da manhã.
- Tarado! Tarado! Tito, Tito, tem um tarado aqui! Corre aqui!
Tarado? TARADO? Cara, de onde eu tirei isso? O cara me olhava meio espantado, meio rindo. Acho que nem ele acreditou que alguém ainda grita “tarado!” quando vê um estranho em casa. Joguei a Coca nele, claro, eu estava histérica. Tito veio correndo, me agarrou, e tapou minha boca. Eu só via um terrível monstro de dois metros de altura olhando desolado para a mancha de Coca na camiseta branca.
Aí Tito me olhou com cara de quem “acabou o escândalo?” e eu fiz que sim com a cabeça. Ele me soltou e me apresentou o terrível monstro:
- Esse é o Mateus.
Que vergonha. Eu sou dramática demais, não sei porque sou assim. Na minha família todo mundo é comportado, comedido, fala baixo. E eu saí destrambelhada desse jeito. Sou um eterno personagem de novela mexicana. É impossível que eu seja filha dos meus pais, acho que sou adotada.
E também acho que acabei com o romance do meu roommate. Imagina só a próxima vez que Tito convidar Mateus para ir à nossa casa: mas aquela doida vai estar lá?
Sorri envergonhada e fui para o meu quarto. Nem tive coragem de falar com o menino.
...
Depois desse puta susto, ainda tentei dormir, mas claro que não consegui. Levantei de novo umas seis e meia, me arrumei e vim para o trabalho. Pensei até que talvez tivesse sido uma coisa boa, assim eu chegaria cedo, leria os milhares de e-mails atrasados, arrumaria minha mesa. Fui feliz para o ponto esperar meu ônibus.
O ônibus estava vazio, e isso me deixou mais feliz ainda. Sentei no banco alto, porque sentar no banco alto é muito mais legal, e pensei até em dormir.
Mas não, definitivamente meu dia não estava propício.
Senta um cara do meu lado. Horrível, o cara. Muito feio. Se fosse bonitinho, eu até ia abstrair o fato de O ÔNIBUS INTEIRO ESTAR VAZIO e o fulano resolver SENTAR DO MEU LADO. Mas o cara era o mapa do inferno. Fiquei olhando pela janela, na esperança de que ele não falasse comigo. Tadinha de mim. O cara não só falou, como mandou PIOR CANTADA DE TODOS OS TEMPOS.
- Ei, eu tenho aqui um cd da Tati Quebra-Barraco, quer ouvir comigo?
Ô meu filho, pelamordedeus, o que diabos é Tati Quebra-Barraco? Não precisa explicar, eu não quero saber.
- Nã, brigada.
- Ah, vai. Você tá quase dormindo.
E isso é motivo para ouvir uma música de uma pessoa que se auto-intitula Quebra-Barraco? Tem dó. Nem respondi e levantei, fui sentar perto do cobrador. Ando esperta, ultimamente. Depois da história do caolho, acho melhor ficar perto de homens defensores de mocinhas indefesas.
Pelo menos o cara desistiu. De mim, claro. Tinha mais uma outra menina no ônibus e ele foi lá. Além de feio é chato.
...
Mas meu dia bizarro não podia parar por aí. Ainda tem mais.
O aspirador de pó da tia da limpeza chupou meu título de eleitor. Acho que a tia fez de propósito. Pedi para ela me entregar quando for jogar o pó fora, mas acho que ela não vai entregar porra nenhuma. Ela não gosta de mim. Só porque eu falei que o café dela é ruim. Eu, hein, esse povo é muito sensível. Como eu vou votar agora?
Veio um cara aqui entregar uma pizza. Quem pede pizza às duas da tarde? O Adriano ficou discutindo lá com ele, que nós não pedimos, e tal, mas o cara insistia que fomos nós que pedimos, confirmou endereço, disse que se nós devolvessemos sairia do bolso dele, bla bla bla. O Adriano ficou com dó e pagou pela pizza. Eu particularmente acho que é uma estratégia. A pizzaria manda um moleque com cara de coitado nos escritórios da região, alguém sempre fica com dó e paga pela pizza. Estelionato, escuta o que eu estou falando. O Golpe da Pizza.
Pelo menos é boa, a pizza.


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