Insanity, stop fuckin' with me.
Coisas estranhas acontecem comigo, o tempo todo. Já me acostumei com isso e simplesmente deixo pra lá, mas às vezes é difícil ignorar. Coisas estranhas que não são sobrenaturais, são simplesmente estranhas. E às vezes essas coisas me fazem ficar um tanto louca. Um tantão assim, ó.
Tem umas pessoas que moram aqui dentro da minha cabeça e que cultivam o péssimo hábito de me dizer o que fazer. Às vezes eu as escuto, e isso não é bom. Isso não é nada bom. Olá, pessoas que moram dentro da minha cabeça. Tudo bem? Só queria dizer que ontem vocês passaram dos limites. De modo que venho por meio desta propor um acordo: que tal não envolver outras pessoas nisso? Vamos manter esse manda-e-desmanda entre nós. Ah, deixa pra lá. Eu tenho que fazer o que vocês mandam, mas o inverso não se aplica, certo? Então esqueçam. Não está mais aqui quem falou. E falem baixo que preciso trabalhar. Grata.
....
Ontem à noite, estava eu indo pegar meu ônibus, por volta das oito da noite. Parei no farol para atravessar a rua e chega um cara, bem vestido, de gravata e tal, tremendo dos pés à cabeça e não falando coisa com coisa. Eu levei um susto tão grande e fiquei com tanto medo que minhas pernas não se mexiam e eu abria a boca mas as palavras não saíam. O cara dizia umas coisas desconexas, e eu mal entendia o que ele falava. Entendi algo como me ajuda, meu carro foi roubado e levei um tiro na mão, mas nem tenho certeza se foi isso mesmo o que ele disse. A mão dele estava sangrando. Ele suava muito e falava rápido. Eu não sabia o que fazer. Ele me pediu dinheiro, cartão telefônico, celular, disse que precisava ir para Bauru, que precisava avisar alguém. O cara estava visivelmente transtornado. Eu só conseguia repetir: não tenho, não tenho. O que não era mentira, se eu desse meu dinheiro para ele, quem teria que pedir algum para voltar para casa seria eu.
Mas eu poderia ter feito algo, poderia tê-lo levado até a portaria do prédio onde trabalho para que ele usasse o telefone. Não sei. Poderia tê-lo feito ao menos se acalmar e me explicar direito o que havia acontecido. Não sei. Poderia tê-lo levado até a padaria e tê-lo feito tomar um copo de água com açúcar. Não sei. Acho que eu poderia ter feito algo, mas essas pessoas, essas aqui que moram na minha cabeça, berravam para que eu fosse embora, para que eu corresse, fugisse, que ele estava mentindo e ia me roubar, o homem apavorado ia me bater, me raptar, me matar. Elas berravam para que eu atravessasse a rua no meio dos carros mesmo, que eu não ficasse ali nem mais um minuto, nem mais um segundo, porque ele só estava esperando a hora certa para me atacar, um momento de fraqueza meu, um momento desatento. Então suas longas garras sairiam das pontas dos dedos e ele iria agarrar meu pescoço e me sufocar ali mesmo, no meio da calçada, no meio do congestionamento.
O homem, desnorteado e machucado, viu que ali não ia dar jogo e saiu de perto de mim, me olhando com uma expressão amuada. Como se eu tivesse feito aquilo de propósito, como se eu realmente tivesse desejado ficar plantada ali feito uma bananeira ao invés de fazer alguma coisa por ele. Eu via nos olhos dele que por minha causa, e nesse momento, ele havia perdido a fé nas pessoas. Que triste isso. Fiquei parada ali, no mesmo lugar, muito tempo. O farol abriu, fechou, abriu de novo e meus pés simplesmente grudados no chão. Fiquei olhando para o homem se afastando, perturbado, pensando no que fazer, procurando outro alguém. E os pingos de sangue escorrendo pela mão dele. Eu quis gritar, ei, moço, volte aqui, eu te ajudo, te levo num hospital, a gente pega um táxi e eu dou um cheque sem fundo, eu te compro um Valium, eu te levo para Bauru. Mas a voz não saía e meus pés não se mexiam, e isso me fez ficar absurdamente triste comigo mesma. Fiquei triste comigo mesma porque obedeci as vozes da minha cabeça. Ele poderia sim, estar mentindo e me assaltar? Claro. Mas, afinal, o que eu tenho que valha a pena ser roubado? E se ele estivesse falando a verdade? Que espécie de pessoa sou eu, negando ajuda?
Fiquei triste comigo mesma, principalmente, porque entendi que, na verdade, quem não tem fé nas pessoas sou eu.
Coisas estranhas acontecem comigo, o tempo todo. Já me acostumei com isso e simplesmente deixo pra lá, mas às vezes é difícil ignorar. Coisas estranhas que não são sobrenaturais, são simplesmente estranhas. E às vezes essas coisas me fazem ficar um tanto louca. Um tantão assim, ó.
Tem umas pessoas que moram aqui dentro da minha cabeça e que cultivam o péssimo hábito de me dizer o que fazer. Às vezes eu as escuto, e isso não é bom. Isso não é nada bom. Olá, pessoas que moram dentro da minha cabeça. Tudo bem? Só queria dizer que ontem vocês passaram dos limites. De modo que venho por meio desta propor um acordo: que tal não envolver outras pessoas nisso? Vamos manter esse manda-e-desmanda entre nós. Ah, deixa pra lá. Eu tenho que fazer o que vocês mandam, mas o inverso não se aplica, certo? Então esqueçam. Não está mais aqui quem falou. E falem baixo que preciso trabalhar. Grata.
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Ontem à noite, estava eu indo pegar meu ônibus, por volta das oito da noite. Parei no farol para atravessar a rua e chega um cara, bem vestido, de gravata e tal, tremendo dos pés à cabeça e não falando coisa com coisa. Eu levei um susto tão grande e fiquei com tanto medo que minhas pernas não se mexiam e eu abria a boca mas as palavras não saíam. O cara dizia umas coisas desconexas, e eu mal entendia o que ele falava. Entendi algo como me ajuda, meu carro foi roubado e levei um tiro na mão, mas nem tenho certeza se foi isso mesmo o que ele disse. A mão dele estava sangrando. Ele suava muito e falava rápido. Eu não sabia o que fazer. Ele me pediu dinheiro, cartão telefônico, celular, disse que precisava ir para Bauru, que precisava avisar alguém. O cara estava visivelmente transtornado. Eu só conseguia repetir: não tenho, não tenho. O que não era mentira, se eu desse meu dinheiro para ele, quem teria que pedir algum para voltar para casa seria eu.
Mas eu poderia ter feito algo, poderia tê-lo levado até a portaria do prédio onde trabalho para que ele usasse o telefone. Não sei. Poderia tê-lo feito ao menos se acalmar e me explicar direito o que havia acontecido. Não sei. Poderia tê-lo levado até a padaria e tê-lo feito tomar um copo de água com açúcar. Não sei. Acho que eu poderia ter feito algo, mas essas pessoas, essas aqui que moram na minha cabeça, berravam para que eu fosse embora, para que eu corresse, fugisse, que ele estava mentindo e ia me roubar, o homem apavorado ia me bater, me raptar, me matar. Elas berravam para que eu atravessasse a rua no meio dos carros mesmo, que eu não ficasse ali nem mais um minuto, nem mais um segundo, porque ele só estava esperando a hora certa para me atacar, um momento de fraqueza meu, um momento desatento. Então suas longas garras sairiam das pontas dos dedos e ele iria agarrar meu pescoço e me sufocar ali mesmo, no meio da calçada, no meio do congestionamento.
O homem, desnorteado e machucado, viu que ali não ia dar jogo e saiu de perto de mim, me olhando com uma expressão amuada. Como se eu tivesse feito aquilo de propósito, como se eu realmente tivesse desejado ficar plantada ali feito uma bananeira ao invés de fazer alguma coisa por ele. Eu via nos olhos dele que por minha causa, e nesse momento, ele havia perdido a fé nas pessoas. Que triste isso. Fiquei parada ali, no mesmo lugar, muito tempo. O farol abriu, fechou, abriu de novo e meus pés simplesmente grudados no chão. Fiquei olhando para o homem se afastando, perturbado, pensando no que fazer, procurando outro alguém. E os pingos de sangue escorrendo pela mão dele. Eu quis gritar, ei, moço, volte aqui, eu te ajudo, te levo num hospital, a gente pega um táxi e eu dou um cheque sem fundo, eu te compro um Valium, eu te levo para Bauru. Mas a voz não saía e meus pés não se mexiam, e isso me fez ficar absurdamente triste comigo mesma. Fiquei triste comigo mesma porque obedeci as vozes da minha cabeça. Ele poderia sim, estar mentindo e me assaltar? Claro. Mas, afinal, o que eu tenho que valha a pena ser roubado? E se ele estivesse falando a verdade? Que espécie de pessoa sou eu, negando ajuda?
Fiquei triste comigo mesma, principalmente, porque entendi que, na verdade, quem não tem fé nas pessoas sou eu.


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