5.14.2004

A no-smoking sign on your cigarette break



Tem um rato morto morando atrás do meu olho.

Não é impressionante?

Há poucos dias estava eu toda feliz que nenhuma doença de velho tinha se manifestado, bla bla bla. Ingenuidade a minha não? Nada é tão ruim que não possa piorar. Chegou a sinusite, que apelidei carinhosamente de “tem um rato morto morando atrás do meu olho”.

Gripe, tosse, sinusite.

Coisas nojentas e fedidas e amarelas saindo do meu nariz.

Tosse, muita tosse. Sinusite. Gripe. Dores. Falta de ar. Dores.

Cara, dói tudo. É um inferno isso. Cigarro do caralho.

...

Quando eu comecei a fumar, antes da Pangea rachar, era uma delícia. Eu era chique e fumava Benson&Hedges. Mentolado. Ia para a matinê com meu maço de Benson&Hedges e fumava dois cigarros inteirinhos. Me sentia o último biscoito rechado do pacote.

Um dia, eu descobri que fumava sem tragar. Não é legal isso? Eu juro que não sabia. Pensei que fumar era só puxar a fumaça, deixar na boca um tempinho e soltar. E descobri da pior forma possível.

Eu estava numa feira de ciências de um colégio perto da minha casa, com umas meninas super descoladas. E elas fumavam Marlboro. Eu achei que deveria comprar um maço também e fumar com elas. Acendi lá o meu cigarrinho, e chegou uma das meninas e me deu um puta susto. Engoli a fumaça.

Começou a rodar tudo, minhas pernas bambearam, minha boca ficou seca. Eu precisava sentar. Mas era complicado, as meninas eram descoladas, como eu ia dizer que nem sabia que precisava tragar o cigarro? Adolescente tem dessas coisas. Aguentei firme, mas eu sentia que meu corpo não obedecia aos comandos. A gente foi andando e eu me segurando nas paredes, fingindo que tateava os trabalhos expostos. Eu via tudo em tons de sépia. De repente, uma escada. Pânico. A perna não subia. O pé estava colado no chão. A menina (a mesma do susto) perguntou se eu estava bem. Você tá muito pálida, disse ela. Tô ótima, só preciso ir ali no banheiro. E fui.

Não tinha água.

Minha língua colada no céu da boca, e não tinha água.

Sentei no chão e chorei.

Uns quinze minutos depois, fui atrás das meninas. Elas nem sentiram minha falta. Amigas para toda hora, certo? Certo. Nunca mais saí com elas, mas não desisti. Fui treinando, para não dar mais vexame em público. E comecei a fumar mais. E sem perceber. Aí a grana já não dava mais para o Benson&Hedges. E eu comecei a fumar Free. Na verdade, fumava o que tivesse. Lark, uma época eu fumei Lark. Comprava no camelô com passe escolar. Mas nunca filava cigarros, acho isso o fim da picada. Eu sempre tinha meu maço próprio e adorava ouvir “me dá um cigarro?”. Eu sacava meu maço com movimentos teatrais, fornecia o cigarro e ainda acendia. Eu era super adulta. Era o máximo. Eu não conseguia entender porque as pessoas enchiam tanto o saco de quem fumava. Eu achava super legal, e essa história de enfizema devia ser um tipo de “Homem do Saco” para adolescentes. Sim, era isso. Minha mãe só estava tentando me assustar, ninguém fica tão doente assim.

Fica, cara, como fica. Demora uns quinze anos, mas fica.

Agora, pergunta se eu parei de fumar, fora os dois dias em que tentei com todo afinco mas não consegui dar nem uma tragadinha?

Espero que eles encontrem a cura do câncer bem rápido.