5.03.2004

Confusion never stops, closing walls and ticking clocks




Minha avó, Dona Yara, que era diabética, ficou esclerosada no fim da vida. Esclerose é uma doença, ok. Mas sempre achei que os sintomas mais graves eram reflexos de algo maior, e só hoje eu entendo.
Minha avó sempre teve tendência a juntar tranqueiras, acho que porque no começo da vida dela com meu avô eles eram muito pobres, então ela se apegava demais ao que tinha, mesmo que fosse um monte de coisa que não servia para nada. Conforme a doença ia se agravando, agravava-se também a mania de guardar objetos, independente da origem ou funcionalidade: rodas de carrinho de plástico que ela achava na rua, um pedacinho de madeira, um prego, potes usados, pedacinhos de linha de crochê, coisas assim. E ela ia juntando tudo e construindo um mundo só dela, meio que se protegendo das pessoas, das coisas ruins, ali ninguém entrava, ninguém mexia, era a fortaleza dela.
Isso porque meu avô canalha deu um pé na bunda dela quando ela mais precisou dele, quando ela começou a ficar doente, e foi morar com aquela perua oxigenada e largou minha avó sem grana e sem dignidade. Sem dignidade alguma, minha pobre avó. Por alguns anos, minha avó dormia com a foto do meu avô canalha embaixo do travesseiro, esperando que ele voltasse para casa. Ele nunca voltou. Então ela foi guardando as coisas, empilhando, organizando, etiquetando, encaixotando e se ocupando. Para nós, que olhávamos de fora, era surreal. Caixas empoeiradas por todos os lados. Para ela, estava tudo certo. Agora ninguém ia encostar de novo no que era dela.
E não eram só os objetos. Além das pilhas de coisas amontoadas pela casa, ela ainda tinha uma infinidade de móveis, quadros, gatos e plantas.
E presentes. Minha avó era muito foda, nunca esquecia o aniversário de ninguém. E para nós, eu e meu irmão, os únicos netos, ainda tinha sempre um presente nas datas mais esquisitas, tipo passou-de-ano, faz-tempo-que-vocês-não-vêm-aqui, hoje-o-dia-tá-lindo. Nada de valor, nunca era. Meias, um bombom, uma revista em quadrinhos, coisas assim. E a gente adorava. Às vezes rolava até um dinheirinho, ou então ela complementava alguma coisa que a gente queria comprar, como daquela vez em que eu queria porque queria patins (ainda eram daqueles que a gente amarrava por cima do tênis) e eu não tinha o dinheiro todo, claro, éramos pobres e os caramingaus que eu tinha geralmente eram provindos de algum tio ou tia de milésimo grau que me viam uma vez a cada cem anos.
Aí eu estava lá na casa da minha avó, e falei para ela que eu queria os patins. Falei também que tinha visto numa loja lá perto, e custava tanto. Não me lembro quanto era. Aí ela falou assim para mim: “Ahãn, se você tem tanto, falta tanto. Eu tenho o resto, mas você tem que decidir se quer os patins ou que eu compre os biscoitos de maizena que você gosta”. Olha só que linda minha avó era: os biscoitos eram muito mais baratos que o tal par de patins, mas ela me fez escolher, porque eu tinha que aprender que quase sempre para conseguir uma coisa eu deveria abrir mão de outra, que independente do valor material, poderia ser mais importante. Obviamente escolhi os patins, e ela comprou e me deu a lição que esperava. Onde eu ia andar com aquela coisa? Na casa dela não tinha espaço porque era uma bagunça de plantas, gatos e tranqueiras amontoadas; e eu era pequena demais para andar na rua, e mesmo se eu fosse um pouco maior, as ruas eram de paralelepípedos.
Conclusão, os tais patins nem saíram da caixa. Aí, no dia seguinte, estava lá eu, meio tristinha, brincando com algum gato, e chega minha avó com um pratinho de biscoitos de maizena com goiabada. Sorrindo, como sempre, me falou baixinho, como se estivesse me contando um segredo, embora estivéssemos só nós duas, os gatos, as plantas e as tranqueiras na casa: “Viu que sol lindo hoje? Sempre fique feliz quando vir um sol desses. E tome um presente por iluminar mais ainda minha vida.” Cara, foram os melhores biscoitos de maizena com goiabada da minha vida. E eu aprendi a lição que minha avó queria me dar, aliás, as duas lições. A outra era que minha avó era muito foda e me amava muito.

E qual o motivo de eu estar contando tudo isso?
Ontem fui desocupar o armário embutido que estava servindo de porta-tralha no quarto que agora é de Tito. Livros, cadernos antigos, agendas, lápis de cor, tintas, cartões do amigos, tudo, todas as minhas coisas mais importantes, meus tesouros. Depois liguei para D. Eliana para saber se ela não quer ser gentil e me doar uma metade de um guarda roupa que eu sei que só ocupa espaço na casa dela. E contei que eu tirei tralha que não acabava mais do armário. E ela falou, “tudo bem, mas porque você não joga algumas coisas fora?...você está ficando igual à sua avó.”

Hehe.
Estou ficando igual a ela?
Ela me fez assim.
Ainda bem.