5.31.2004

E hoje tem série nova no AXN, Kingdom Hospital, de Mr. King. Às vinte e uma horas.

"O desastre do passado agora assombra o estabelecimento do presente! Kingdom Hospital é uma história surreal de um hospital que foi reconstruído após dois terríveis incêndios. O primeiro aconteceu ainda durante a Guerra de Secessão, que atingiu uma fábrica, onde crianças trabalhavam em condições precárias. Praticamente todas elas morreram durante o incidente. O segundo incêndio destruiu o 'velho kingdom-, um hospital onde um médico inescrupuloso realizava experimentos horríveis em pacientes. Stephen King, o legendário mestre do horror, impõe seu estilo assustador neste drama assombrado por fantasmas de crianças, psiquiatras e cirurgiões sinistros e manifestações bizarras da natureza. Em Kingdom Hospital, Stephen King estréia como produtor de uma série de TV e mostra que seu talento vai muito além das páginas dos livros e das telas dos cinemas.

Baseada na minissérie dinamarquesa, "The Kingdom", do polêmico cineasta, Lars Von Trier ("Dançando no Escuro" e "Dogville"), o projeto de Kingdom Hospital surgiu em 1996, quando Stephen King estava em Boulder, Colorado, filmando a minissérie "O Iluminado". Durante uma parada em uma vídeo locadora, Stephen encontrou a obra de Trier e se interessou pelas cenas aterrorizantes desbotadas em tons sépios e pontuadas por música sinistra. Mas King se entusiasmou pela idéia de produzir a série, quando sofreu um acidente horrível. Durante uma caminhada, em 1999, o escritor foi atingido por um motorista embriagado, e por causa das fraturas causadas pelo atropelamento, foi obrigado a ficar muitos dias internado em um hospital. King teve então a oportunidade de examinar profundamente o clima do lugar, os cuidados médicos, o comportamento dos pacientes e funcionários, e os casos de doenças e de curas. Está aí a explicação do vigor estonteante que Stephen King levou para Kingdom Hospital, somado ainda aos sustos, às reviravoltas surpreendentes, ao humor negro e aos sensacionais efeitos especiais.

A trama do piloto da série começa quando Mrs. Druse, paciente que possui poderes psíquicos, está convencida que o fantasma de uma garotinha anda pelo hospital tentando revelar um segredo terrível. Ao mesmo tempo, em outra ala do hospital, um segurança quase cego, garante ter visto fantasmas, enquanto plantonistas testemunham ambulâncias que não existem.

Nas novas instalações do presente, velhos segredos do passado começam a se revelar, e médicos que mantiveram a tecnologia e a ciência à frente da fé, são obrigados a lidar com mistérios e poderes que colocam em xeque a razão e o bom senso."


Uau. Obviamente, só assistirei se o Moço Malvado da Tevê a Cabo ainda não tiver descoberto meu gato.

Little pig, little pig, let me in.



Aproveitei esse finalzinho de tarde chuvosa, já que estou com preguiça demais para trabalhar, para separar as coisas que eu não conheço que estão na minha bolsa (gigantesca, eu tinha que ir com uma bolsa gigantesca...olhaí o resultado) e ligar para o Felipe e perguntar de quem são essas coisas.

Quer ver o resultado?

Achei aqui um calendário da Seicho-No-Ie (isso ainda existe?), uma caixa de Cataflan (alguém deve estar com o dente latejando de dor hoje), umas camisinhas que não são as do Max (porque o Max só usa Preserv, que te dá maior sensibilidade), um picolé de uva (sim, tinha um picolé de uva – nesse caso, um saquinho de suco de uva com um palito boiando – na minha bolsa), um móbile feito de macarrão parafuso (medonho, nem posso dar para o filho do porteiro do prédio), um abridor de garrafa (deus, além de tudo cleptomaníaca), uma foto de mulher pelada (!) e um cofrinho-porquinho de borracha (acho que ficarei com ele, poderá servir de porta-clips).

O Felipe disse para eu jogar esse lixo fora. Surpreendente.

Ah, pérola da festa do Felipe (tinha que ter uma...)

- Você é apropriada.
- Ãhn?
- Apropriada. Você.

Já me chamaram de muitas coisas estranhas, mas apropriada, foi a primeira vez.

Greasy fingers smearing shabby clothes



Preciso de uma calça nova.

Nem ligo muito para esse lance de roupas, a maioria das que uso eram do meu irmão, mas definitivamente nesse inverno terei que comprar uma calça nova. A minha tem um furo no joelho. Parece proposital, mas não é, e tem hora que me sinto ridícula com uma calça que tem um furo no joelho. E entra um ventinho o tempo todo e eu não gosto porque está muito frio para ter que aguentar ventinho no joelho.

Só que não tenho dinheiro. Nem para comer, é sério. Tito e eu estamos passando necessidade. Não temos papel higiênico e estamos usando papel toalha, e só temos papel toalha porque minha mami não pode ver promoção e num dia de fúria comprou dezoito, repito, DEZOITO, pacotes de papel toalha.

Provavelmente terei que aproveitar a época das festas juninas e costurar um retalho xadrez no meu joelho. Pode ser. As pessoas já me acham esquisita mesmo, ninguém ia estranhar.

We can dance if want to



A festa foi muito, muito foda. Muito. Mesmo.

Acordei ontem seis da tarde, sem fazer a menor idéia do que tinha acontecido, e nem porque estava dormindo num colchão no chão e não na minha cama. Também não entendi direito porque eu estava enrolada em uma toalha de mesa e não num cobertor.

Aparentemente perdi meu celular, mas estou inteira e parece que não fiz nenhuma tatuagem nova.

A ressaca ainda está aqui. Olá, ressaca. Não tens nada melhor para fazer não? Vai embora, preciso trabalhar.

Minha bolsa está cheia de coisas que eu não conheço. Preciso ligar para o Felipe e perguntar o que aconteceu, não lembro de muita coisa.

E tem uns arranhões no meu braço, nem quero pensar no que pode ter causado isso.

5.27.2004

Live and let die





Não tenho mais tanta certeza que eu quero ser mulherzinha e mimada. Não aguento mais esse povo me cercando. Credo, sai daqui. Agradeço do fundo do meu coração a carona até lá em cima na Teodoro todos os dias (se bem que nem faz muita diferença, tenho que pegar o ônibus do mesmo jeito e às vezes até demora mais, mas agradeço), mas não precisa ir até o ponto comigo e ficar esperando o ônibus comigo. Sai de perto. Agradeço também a preocupação de eu ficar sozinha no escritório, mas, querido, já passou pela sua cabecinha que eu realmente QUEIRA ficar sozinha no escritório? Não ando tendo muitas chances de ficar sozinha, e eu preciso ficar sozinha às vezes. Então, dá licença que eu preciso respirar. O Max que é o Max não faz isso, por que vocês não me deixam em paz então?

E eis que no exato momento em que escrevo isso, o perseguidor implacável começa:

- Você já tá indo?
- Vou ficar mais um pouco, o trânsito tá feio.
- Até que horas?
- Sei lá, umas oito.
- É que eu tenho aula seis e meia...
- Então você já deveria estar lá.
- Eu sei.
- Ué, vai pra aula então!
- Tô te esperando.
- Pra quê?
- Pra carona.
- Não precisa, pode ir. Não vai perder a aula por minha causa.
- Mas tá frio... eu espero, vai. Acho que ainda posso faltar uma vez nessa aula.
- Não espera, não, vai pra aula. Não precisa me dar carona.
- Mas eu quero.
- Mas eu não quero.
- Tá chovendo também...
- Eu não vou embora, tá? Vou dormir aqui!
- O Max sabe?
- Ai, meu São Caralho...
- Tá bom, fui, tchau...
- ...


Das duas uma: ou o cara quer me comer, ou acha tem alguma dívida paternal pendente comigo de alguma encarnação passada.

Acho que ele quer me comer.

Nessa bumba eu não ando mais




Olha, até que nem é tão ruim assim andar de ônibus. Afinal, andei de ônibus anos a fio até minha mui gentil mami resolver me ajudar a comprar um carrinho, que pagamos penosamente por trinta e seis meses. Por isso que eu amava tanto meu carrinho, que foi covardemente destruído. Porque demorou um milênio para eu pagar por ele. Até dei uma micro-festa dentro do carro quando acabaram-se as malditas prestações. Mas, como diz o Zê do Bar (não é Zé, é Zê mesmo), acabou-se o que era doce. Agora eu faço parte da parcela que reclama do transporte público. Mas até que gosto de ônibus. Sério. Metrô acho muito impessoal, não dá para saber se o motorista está bêbado. Fora que eu sou claustrofóbica e tenho horror de andar a sessenta quilômetros por hora num caixotão metálico num buraco embaixo da terra cheio de gente espremida. Fico com a sensação de que o ar acabará a qualquer momento. E se esse troço bate de frente? Quem não morrer amassado morre asfixiado. Deus me livre. Voltando ao assunto, claro que dá uma puta raiva quando o ônibus vem lotado, depois de você ficar mais de vinte minutos no ponto tomando uma garoinha gelada na cara, num frio do cacete. Mas tudo bem, compensa. Estou fazendo uma coleção de pérolas de ônibus que você não vai acreditar.



....



Ontem à noite estava eu no ônibus lotado, entram três meninas muito falantes, de cabelos alisados e touquinhas de crochê coloridíssimas. Aquilo sempre me lembra um pouco um jamaicano escondendo o rastafári na touca, mas deixa pra lá. As meninas nem eram tão meninas assim. Algo em torno dos vinte anos, mas com aquele vigor de quem não trabalhou o dia todo e certamente não está cansado.

Não havia lugar para sentar, e as raparigas resolveram instalar-se do meu lado, com suas mochilas cheias de chaveirinhos com bichinhos fofos de pelúcia encostando no meu nariz e enroscando no meu cabelo. Cristo. Acredito que o volume da voz de uma delas, mais inflamada, beirava os oitenta decibéis.

Pode ter certeza que eu não levo o menor jeito para defensora dos frascos e comprimidos, mas ontem juro que tive vontade de espancar a bunda de cada uma delas com uma sandália franciscana. Sem dó. As moçoilas despejaram seu veneno juvenil sobre metade da população paulistana, com os argumentos mais absurdos que já ouvi em minha vida.

Um professor que, aparentemente, NÃO TINHA O DIREITO de dar-lhes notas baixas porque ELAS ESTÃO PAGANDO A FACULDADE e, consequentemente, o professor em questão pode ser considerado FUNCIONÁRIO DELAS. Eu sei que essa é um clássico entre as cabeças-de-vento, mas pensei que isso já tinha sido erradicado pela superexposição. Não foi.

Uma amiga delas que, aparentemente anda GORDA DEMAIS PARA CONTINUAR COM AQUELE NAMORADO LINDO. Ora, façam-me o favor, princesas. O cara gosta dela, gorda ou não. Tem dó. Vão cuidar de suas vidinhas estúpidas e comam alguma coisa que essa anorexia ainda vai matá-las. Broncas já as deixou.

A monitora do laboratório que, aparentemente USA O MESMO TÊNIS DESDE O COMEÇO DO ANO. Ok, essa foi demais. Pensem, fofas, pensem. Se a menina é monitora do laboratório, significa que ela não tem um pai trouxa bancando tudo o que a filha debilóide, mimada e alisada quer e tem que ralar, certo? Certo. Que tal prestar atenção na aula de laboratório e esquecer por um momento o tênis alheio? Os professores/funcionários agradecem.

Aí toca o celular de uma delas. Caralho, a menina falava muito alto. Pior que isso, só a Carol.

- Alôaah...
(Alôaah? ALÔAAH? Você não é carioca, menina, estava falando que nem paulistana até agora e me manda esse “alôaah” só para fazer gênero. Jesus Maria José.)

- Entáaaum... naum vai dáá, tô no carro da minha miga...
(Carro? CARRO? Ok, chama a polícia que tem mais umas cinquenta pessoas desconhecidas no carro da sua miga. Sem falar que tem um cara ali de camisa azul querendo tirar um troco com essa situação: está cobrando um real e setenta centavos de todo mundo que entra no carro da sua miga. Também aceita passe e um tal de bilhete único. A que ponto chegamos.)

- Náaaaum... depois eu vô prá cadimía, têm que malhar, néaahmm?
(Sim, tem que malhar. Quem sabe a oxigenação de seu cérebro atrofiado melhore, e você entenda que há vida além do secador de cabelos.)

E por aí foi o negócio.

Tentei não ouvir mais a conversa, mas foi impossível. A menina berrava como um rinoceronte no cio. Então testei a técnica que meu papi me ensinou, a do transe. Não é que funciona? Não ouvi mais nada, concentrei-me no meu livro, e li umas duzentas páginas em dez minutos. Qualquer dia desses eu conto como se faz.

Pois é, a técnica deu tão certo que passei meu ponto. Na verdade, o cobrador do ônibus me tirou do transe no ponto final, perguntando se eu estava bem. Eu disse que sim, estava, mas lugar é esse? É o ponto final, disse ele. Sem dinheiro para pegar outro ônibus até a minha casa, já que eu não fazia a menor idéia de onde estava, comecei lá uma lenda para o cobrador me deixar voltar no mesmo ônibus, estava frio, chovendo, bla bla bla. Nem precisei choramingar muito, eu devia estar com a maior cara de doida da face da terra e ele deixou eu voltar sem pagar outra passagem.

Passei meu ponto de novo (afinal, estávamos vindo no sentido contrário e eu não estou acostumada com o trajeto), mas essa eu mereci. Castigo por ficar ouvindo a conversa alheia.

Smoke on the water



Esclarecendo: eu fumo maconha, mas não trago. Quem traz é um amigo meu.

Infame? O cara da água discorda.

5.26.2004

Just nod if you can hear me



Sim, meu aniversário foi muito bom, obrigada. Muito melhor do que eu esperava. Fiquei de certa forma surpresa. Sexo, drogas e rock n´roll. Eu sei, eu sei, é tããããããão anos setenta falar sexo, drogas e rock n´roll, mas o que eu posso fazer? Realmente passei um dia inteiro, inteirinho, vinte e quatro horas cercada de sexo, drogas e rock n´roll. Foi isso o que aconteceu, e não tenho expressão melhor para definir. E foi ótimo. Fazia tempo, muito tempo...

....


Então, Felipe anda com pena de mim (o outro Felipe, não o da Ypióca) e convidou-me para A Festa, A Super Secreta Festa, A Festa Onde Tudo Acontece e Ninguém Tem Vergonha, A Festísima, no próximo final de semana, e fiquei muito feliz. Ele só me deixou ir a uma dessas festas dele uma vez, depois de eu choramingar e implorar e encher o saco dele durante umas três horas, ininterruptamente, e jurar de pés juntos mil vezes que eu seria boazinha e não passaria o tempo todo de boca aberta de espanto. Aí ele deixou. Anotou num guardanapo O Endereço Secreto, dobrou e deu um berro bem lá dentro da minha cabeça: “É PRA IR SOZINHA, HEIN? SE APARECER LÁ COM O MAX NEM PASSA DA PORTA!!!”. Credo, que violência. Claro que eu iria sozinha.

Foi foda. FODA. Cara, nem lembro de muita coisa mas lembro que foi muito foda.

Embebida em álcool e balinhas que umas pessoas legais me deram, conheci uma das muitas mulheres da minha vida. Ficamos juntas e nos amamos. Conversei muito muito muito com umas pessoas que eram mais legais ainda, ri com elas, transei com elas e dormi com elas. Aprendi quinhentas piadas novas e as esqueci logo ao sair do banheiro. Pintei meu cabelo e minha tatuagem, que estava só contornada. Comi comida mexicana e detestei porque eu detesto pimenta. Aí comi outra comida mexicana, sem pimenta, e adorei. Fumei coisas estranhas e cheirosas. Fui passear de madrugada com o cachorro da casa, e já na esquina percebi que estava só de camiseta e calcinha e voltei. O cachorro é meu amigo até hoje, me liga e me manda e-mails.

E agora tem outra festas dessas, bem ali, pertinho, e bem loguinho, no sábado. Uau.

5.21.2004

Eu não preciso de muito dinheiro, graaaaaçasadeus



Outra coisa que descobri. Até que ficar doente e de cama e à beira da morte serviu para pensar com calma em muita coisa. Mas não foi isso o que descobri.

Descobri que não tenho amigos influentes e não conheço pessoas fodonas e é por isso que estou falida. Todos os meus amigos são tão (ou mais) pobres e comuns do que eu.

It’s my party, and I’ll cry if I want to




A propósito, meu aniversário é domingo, dia 23. Esqueci de dizer algumas coisas a respeito do grandioso evento.

- Não vou fazer porra nenhuma. Estou doente e não tenho dinheiro, então, foda-se. Vou ficar em casa comendo quantos Confetis meu pobre fígado judiado permitir. Mais um ano frustrado.

- Minha mami fofa fofíssima não virá, que merda. Mas virá na próxima semana, e faremos uma festa só eu e ela, com bolo de chocolate cheio de cobertura de brigadeiro, bem gelado.

- Max comprou a sanduicheira que eu queria. Ele acha que eu não sei o que ele vai me dar de presente, e eu o amo tanto que realmente finjo que não sei o que é. O Max é o cara mais foda do mundo.

- O Felipe insiste para a gente sair e encher a cara, diz que eu não tenho nada que uma Ypióca não cure. Faça-me o favor. Se eu tivesse forças para ir a algum lugar, jamais seria a um boteco pé-sujo (essa eu ouvi outro dia de um cara no ônibus e achei o máximo) tomar Ypióca.

- Ok, eu gosto de botecos pé-sujo. Mas não no dia do meu aniversário.

Se bem que eu poderia ir para Curitiba. Passei míseros dois dias lá e me APAIXONEI PERDIDAMENTE pela cidade e pelas pessoas. Nasci no lugar errado.

Possibilidade a ser estudada, Curitiba. Eu gostaria muito.

Hey, he said, grab your things, I’ve come to take you home




Cara, era isso. Era isso desde o começo, sempre foi isso. Nunca foi outra coisa, eu menti para mim mesma, me enganei, me iludi, me confundi.

Eu achei que queria ser outra pessoa, aquela lá do filme, sabe? Achei que queria ser um mulherão, tomar as rédeas, botar pra foder. Queria ser aquela mártir da novela, aquela aflita da música, aquela maldita do poema, aquela desgraçada ali da esquina. É tão complicado e ao mesmo tempo tão simples, eu sei que não era a coitada ali, mas queria ser, porque eu queria dar um jeito em tudo, queria resolver os problemas, queria olhar para trás e contemplar um mar de realizações.

Fui criada assim. Merda.

E talvez seja por isso que eu me enfie em tanta furada, em tanto projeto, em tanta balada, me meta com tantas pessoas, me envolva, me jogue, mergulhe e afunde, afunde, afunde, e quando olho lá do fundo mal vejo a superfície, e o esforço para nadar de volta é tão grande, cada passo é tão suado, que no fim eu já nem lembro como fui parar ali.

De repente, um insight. Tudo ficou claro. Absurdamente claro. É isso, é isso!

Eu quero, preciso de colo. Não quero ser mulherão, quero ser mulherzinha. Quero ser mimada. Quero não ter que trabalhar vinte e cinco horas por dia, quero não ter que pagar todas as contas do mundo, quero não ser a tábua de salvação. Quero ser fraca, quero chorar quando estou triste, quero dizer que não aguento mais e passar o dia trancada no quarto. Quero ficar em casa, cuidar das minhas plantas, dos meus gatos, escrever um monte de histórias bem fantásticas para os meus primos e um monte de histórias bem arrepiantes para o Max. Quero ir nadar no clube e em seguida encher a cara de cerveja e peixe frito, devidamente acompanhados de um macinho de cigarros. Quero ser amiga só dos tiozinhos e das tiazinhas, não quero ficar falando com gente que nada viveu e acha que tudo sabe. Quero comer comida saudável feita na hora. Quero ter tempo de olhar a chuva, quero acordar tarde no frio.

Chega, chega, chega.

E veio a solução, simples, fácil, a solução para todos os meus problemas. Vou me mandar daqui. Fechar a empresa, a casa, a cara e a vida. Pára tudo, umdoistrês, começaaaaaaaando novamente. Dessa vez, sério, parando de querer ser outra coisa e admitindo o que sou, por mais doído que seja. Caralho, essa sou eu.

Vou-me embora para Pasárgada... ops, para Manaus. E tenho dito.

5.20.2004

And I'm feeling very sick and ill today




Já me conformei em passar meu aniversário rodeada de toneladas de lenços de papel cheios de coisas amarelas e nojentas e fedidas, litros de sopa (aliás, se eu vir mais um prato de sopa juro que vomito) e baldes de chá de limão com alho. Então, não tocarei mais nesse assunto.

Hoje estou um tiquinho melhor, mas não o suficiente para escrever muito. Então vamos a um breve resumo dos acontecimentos. Depois eu explico tudo melhor. Ou não.

- Fugi de casa quando ninguém estava olhando para jogar na Mega Sena. Usei o dinheiro do cigarro, já que não consigo fumar mesmo.

- Na volta levei bronca do porteiro que disse que eu não deveria estar perambulando com esse frio por aí, por causa da pneumonia. Perguntei como ele sabe que eu estou com pneumonia. Ele disse que minha tosse está muito feia e ele não consegue dormir por causa do barulho.

- A moça do banco me ligou para avisar que vão cortar meu limite se eu não pagar o empréstimo. Com que dinheiro?, falei. Estou à beira da morte mesmo, não preciso ser simpática.

- Tito achou o bilhete da Mega Sena e me deu outra bronca.

- Minha sogra se aposentou. Agora ela não vai fazer nada o dia todo, o que significa mais tempo para me atazanar.

- Eu e o cara da água vamos abrir uma Igreja, que esse negócio de dezáine não dá dinheiro não.

- Tito me acorda de madrugada para dizer que está com medo da chuva de meteoritos. Pede para dormir na minha cama. Eu grito: “Sai, vudu!”. A vizinha do lado bate na parede e pede silêncio.

- Não ganhei na Mega Sena.

- Cortaram minha TV a cabo. Eu só estava devendo quatro meses! Que desrespeito. Fui lá e fiz um gato.

- Não tive coragem de mandar meu funcionário maconheiro embora por telefone. Sou mole demais mesmo.

- Fugi de novo para alugar um filme. Quase fui atropelada.

- Roubei um display tamanho natural do Freddy x Jason da locadora boqueta. A menina saiu correndo atrás de mim, mas eu fui mais rápida. Depois ela me ligou e disse: pode ficar. Ela achou que eu ia fazer o quê? Devolver?

- Eu queria um cachecol de aniversário. Será que alguém vai me dar um cachecol de aniversário?

- Max recebeu uma proposta de emprego em Manaus. MANAUS. Pode ser que alguém tenha ouvido minhas preces e finalmente seja uma excelente oportunidade de eu me mandar dessa porra de cidade fria do caralho. Tomara.

Pronto, é isso. Vou ali tomar mais seis quilos de aspirina e já volto.

5.19.2004

Send me up a drink, jokes Major Tom



Gripe, tosse, febre, dores, sinusite. Pneumonia. Claro.

Tenho estado na cama esses dias, delirando. Não sei se é dia ou noite, se está frio ou calor, se estou viva ou morta.

Meu leitor me abandonou.

Vozes dispersas comentando sobre minha possível cremação.

Tito cuidando das minhas gatas, Max me trazendo sopa, que tem gosto de serragem.

Antibióticos, analgésicos, antiinflamatórios, xaropes, pastilhas, sprays. Gente, vocês tem certeza que é só uma pneumonia?

Quatro dias sem fumar. Tentei, sério, mas não dá.

Inúmeros pesadelos e tempo suficiente para anotar todos. Pena que falte sanidade para ficar com medo. Mas isso é bom. Medo, ruim. Insanidade, bom. Febre, ruim. Pesadelos, bom.



...



Quando eu voltar para o meu corpo, se é que voltarei um dia, escrevo novamente.

5.14.2004

A no-smoking sign on your cigarette break



Tem um rato morto morando atrás do meu olho.

Não é impressionante?

Há poucos dias estava eu toda feliz que nenhuma doença de velho tinha se manifestado, bla bla bla. Ingenuidade a minha não? Nada é tão ruim que não possa piorar. Chegou a sinusite, que apelidei carinhosamente de “tem um rato morto morando atrás do meu olho”.

Gripe, tosse, sinusite.

Coisas nojentas e fedidas e amarelas saindo do meu nariz.

Tosse, muita tosse. Sinusite. Gripe. Dores. Falta de ar. Dores.

Cara, dói tudo. É um inferno isso. Cigarro do caralho.

...

Quando eu comecei a fumar, antes da Pangea rachar, era uma delícia. Eu era chique e fumava Benson&Hedges. Mentolado. Ia para a matinê com meu maço de Benson&Hedges e fumava dois cigarros inteirinhos. Me sentia o último biscoito rechado do pacote.

Um dia, eu descobri que fumava sem tragar. Não é legal isso? Eu juro que não sabia. Pensei que fumar era só puxar a fumaça, deixar na boca um tempinho e soltar. E descobri da pior forma possível.

Eu estava numa feira de ciências de um colégio perto da minha casa, com umas meninas super descoladas. E elas fumavam Marlboro. Eu achei que deveria comprar um maço também e fumar com elas. Acendi lá o meu cigarrinho, e chegou uma das meninas e me deu um puta susto. Engoli a fumaça.

Começou a rodar tudo, minhas pernas bambearam, minha boca ficou seca. Eu precisava sentar. Mas era complicado, as meninas eram descoladas, como eu ia dizer que nem sabia que precisava tragar o cigarro? Adolescente tem dessas coisas. Aguentei firme, mas eu sentia que meu corpo não obedecia aos comandos. A gente foi andando e eu me segurando nas paredes, fingindo que tateava os trabalhos expostos. Eu via tudo em tons de sépia. De repente, uma escada. Pânico. A perna não subia. O pé estava colado no chão. A menina (a mesma do susto) perguntou se eu estava bem. Você tá muito pálida, disse ela. Tô ótima, só preciso ir ali no banheiro. E fui.

Não tinha água.

Minha língua colada no céu da boca, e não tinha água.

Sentei no chão e chorei.

Uns quinze minutos depois, fui atrás das meninas. Elas nem sentiram minha falta. Amigas para toda hora, certo? Certo. Nunca mais saí com elas, mas não desisti. Fui treinando, para não dar mais vexame em público. E comecei a fumar mais. E sem perceber. Aí a grana já não dava mais para o Benson&Hedges. E eu comecei a fumar Free. Na verdade, fumava o que tivesse. Lark, uma época eu fumei Lark. Comprava no camelô com passe escolar. Mas nunca filava cigarros, acho isso o fim da picada. Eu sempre tinha meu maço próprio e adorava ouvir “me dá um cigarro?”. Eu sacava meu maço com movimentos teatrais, fornecia o cigarro e ainda acendia. Eu era super adulta. Era o máximo. Eu não conseguia entender porque as pessoas enchiam tanto o saco de quem fumava. Eu achava super legal, e essa história de enfizema devia ser um tipo de “Homem do Saco” para adolescentes. Sim, era isso. Minha mãe só estava tentando me assustar, ninguém fica tão doente assim.

Fica, cara, como fica. Demora uns quinze anos, mas fica.

Agora, pergunta se eu parei de fumar, fora os dois dias em que tentei com todo afinco mas não consegui dar nem uma tragadinha?

Espero que eles encontrem a cura do câncer bem rápido.

5.12.2004

Já mencionei que eu tenho um leitor? Pois é, eu tenho.

Oi leitor! (eu dando tchauzinho)
Um beijo para você!

Your circuit's dead, there's something wrong… can you hear me, Major Tom?

Sabe aqueles dias em que você literalmente sai do corpo, e vê tudo de cima?
Hoje estou num desses dias. Eu não acredito nas coisas que acontecem comigo. Parece que é com outra pessoa.

A seguradora recusou-se a pagar o conserto do meu carro. Localizaram até o tiozinho que viu a batida, falaram com ele, falaram com os polícias, falaram com a putaqueopariu, todo mundo confirmou a história, mas eles recusaram-se a pagar. Disseram que o negócio todo está muito mal contado e que eu provavelmente quero dar um golpe no seguro.

Sim, Sr. Moço do Seguro, é exatamente isso que eu estou querendo fazer.

Um dia, mais precisamente num sábado à noite, resolvi que não iria sair para beber com meu namorado e nossos amigos. Não, isso não é divertido. Sabe o que é divertido, Sr. Moço do Seguro? Bater o carro. Então, resolvi que ao invés de encher a cara e cantar músicas bem desafinadinha para fazer todo mundo rir, eu iria pegar a chave do meu carro, bem no dia em que eu tinha mandado lavar, posicioná-lo no meio da avenida, mirar bem num carro parado ou num muro ou num poste ou onde quer que o Sr. queira, Sr. Moço do Seguro, engatar uma ré, acelerar como nunca na minha vida e acabar com a traseira do meu pobre carrinho. Bater de frente não tem graça, tem que ser de ré. Yeeeeeeees, que coisa mais legal! Como eu nunca havia pensado nisso?

E tem mais, Moço do Seguro.

Quer saber o que mais eu fiz? Cheguei num tiozinho que ia passando na rua, e em troca de alguns favores sexuais fiz com que ele decorasse uma história que eu já havia bolado antes. E falei para ele: “Tio, se o senhor contar essa história direitinho para o Sr. Moço do Seguro, e confirmar quantas vezes forem necessárias, transarei com o senhor até o fim dos tempos, todos os dias. Mas tem que contar direitinho, hein?”. Sabe o que aconteceu, Sr. Moço do Seguro? O tiozinho concordou.

Mas não parei por aí. Minhas idéias diabólicas para fraudar o seguro são extremamente profusas.

Cobri todas as falhas.

Subornei a polícia, para que eles fizessem um B.O. sem que nada tivesse acontecido.
Subornei o segurança do puteiro em frente ao local do acidente, para que eles confirmassem a história do tiozinho.
Subornei o porteiro do meu prédio, para que ele não contasse que eu havia saído alguns minutos antes com a cara coberta com aquela touca de lã do PCC, e voltado correndo antes que a polícia chegasse.

Eu tenho muita grana para gastar, então posso subornar muito mais pessoas que isso. Minha conta bancária garantiu-me o crime perfeito, mas eu não contava com a esperteza do Sr. Moço do Seguro, que percebeu tudo. Merda. Eu estava quase lá.

Então, é isso. Fui apanhada. E mereço ser punida.

Agora, ao invés de desembolsar os R$ 1.500,00 da franquia (uma pechincha, não é mesmo?), terei que desembolsar R$ 5.800,00, valor do conserto. Mas isso não será problema para mim. Tenho milhões de dólares na Ilha de Jersey, posso pagar isso e muito mais. Opa, peraí, esse não sou eu... melhor continuar olhando daqui de cima. A realidade anda ruim demais.

For here
Am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet Earth is blue
And there's nothing I can do

5.11.2004

Who let the dogs out?



Hoje tomei um chá de cadeira como há muito não tomava num freguêis (como diz o Max). Uma hora e meia ouvindo barulhinho de motor de dentista por um trabalhinho miserável. Logo eu, que não vou no dentista há anos, porque acho que todos eles têm pacto com o demônio.

Mas, como continuo miserável não posso me dar ao luxo de desprezar trabalhinhos miseráveis. E ainda era na Zona Leste. E ainda era na Vila Formosa. Isso é longe demais. Depois de repetir para mim mesma trezentas e quarenta e duas vezes “nunca-mais-vou-num-cliente-sem-consultar-o-apontador”, num momento Bart Simpson, comecei a concordar com o Felipe, que diz que as pessoas dão informações erradas de propósito. Whatever. Depois de tudo isso o tiozinho ainda me faz esperar por uma hora e meia. Caralho, UMA HORA E MEIA.

E eu fiquei uma hora e meia vendo desenho animado. Não, não é nada disso, eu adoro desenho animado. Mas, me pergunto, o que aconteceu com os desenhos? No meio de uma série de bizarrices, vi até um bicho esquisito metade cachorro metade gato. A metade dianteira de um cachorro colada na metade dianteira de um gato. Isso foi, sem dúvida, uma das coisas que mais me assustaram na última semana. E pensei: como funciona nesse treco a teoria do gato flutuante? Aquela lá, do pão com manteiga, sabe? Amarra o pão no gato... deixa pra lá. Fato é que eu sinto falta de desenhos com bichos falantes muito loucos de ácido se batendo gratuitamente.

A despeito da minha implicância com desenhos novos, ainda não desisti do meu sonho de correr a São Silvestre fantasiada de Bob Esponja. O Adriano fará a minha fantasia.

Pérola da minha casa (nunca pensei que um dia faria essa coletânea)

"Sabe o que eu adoro fazer depois de fumar um baseadinho?
Dublar a Madonna."


Um doce para quem adivinhar de quem é a frase.

A gente começa a esperar por quem ama...



Caio na besteira de dizer ao meu estagiário, que não é muito experiente, que vou apresentá-lo ao meu roommate. Meu estagiário fica muito, muito empolgado. Marco o encontro para sexta, numa happy hour, sem grandes pretensões.

Ligo para Tito para saber se está a caminho, ele disse que sim, está entrando no ônibus. Meu estagiário todo feliz. Passam-se vinte minutos, quarenta minutos, uma hora. Ligo de novo, caixa postal. Meu estagiário já meio decepcionado, pede uma vodka. Mais meia hora, ligo de novo, caixa postal. Meu estagiário já está na terceira vodka e flerta com a moça da mesa ao lado. Desconfio que ele pensa que ela é um homem. Mais vinte minutos, o frio aumenta, e Tito não chega. Estamos numa mesa na calçada, onde venta muito, e o vento está frio. O Adriano reclama que não sente os dedos dos pés, o Felipe reclama que o Adriano reclama de tudo. Meu estagiário não sente frio algum, tanto que tira o casaco, os tênis e as meias. O Adriano diz a ele que se tirar mais uma peça de roupa ele próprio irá providenciar o desvirginamento que o jovem rapaz aguarda tão ansiosamente. A agressiva ameaça do Adriano parece muito engraçada para o meu estagiário, tão engraçada que ele resolve compartilhar com a moça da mesa ao lado, a mesma com quem ele estava flertando há menos de cinco minutos.

E chama a menina de “moço”, o que parece não agradá-la muito.

Com o quinto copo de vodka na mão, meu estagiário está um tanto entediado, e resolve dançar. E como não há música, ele mesmo resolve cantar. Não uma músiquinha bacana, engraçadinha. Ele logo apela para Fio de Cabelo. Aos berros.

Felipe levanta-se e sai sem se despedir, creio que para ninguém perceber que ele nos conhece.

Adriano vai ao banheiro e nunca mais volta.

As pessoas do ônibus no trânsito congestionado fazem coro com meu estagiário.

Eu caio da cadeira de tanto rir.

O cara do boteco expulsa a gente. Pela terceira vez. Isso começa a ficar ridículo.

Tito chega, finge que não nos vê e atravessa a rua.

Puxa, as intenções eram as mehores. Não pensei que o menino dava show quando bêbado. Uma pena.

5.07.2004

Ontem o Max me contou um segredo. O que é absolutamente impressionante, porque o Max nunca conta segredos. É um segredo bobo, mas vindo do Max, é uma coisa IMENSA.

Eu vou contar o segredo dele, porque eu sou bocona, mas não agora.

Aliás, desconfio que é por isso que ele nunca me conta segredos.

5.05.2004

I can't control my fingers, I can't control my brain


Bêbado é uma merda. Ontem eu cortei as unhas de UM PÉ SÓ, esqueci o que estava fazendo e dormi na banheira.

Acordei com a minha mãe batendo na porta para saber se estava tudo bem.

Quero minha privacidade de volta.

I'm wondering why I got out of bed at all




Meu aniversário chegando... pode ser isso. Com certeza é isso. Inferno astral, essas coisas. Tem alguém lá contra mim, me espionando, me sacaneando, me batendo. Pode bater, viu? Eu levanto. Eu sempre levanto.


.......


Ano passado meu aniversário foi um cocô. E eu adoro aniversários, todo mundo me afofando, me ligando, me dando beijocas. Eu adoro beijocas. Mas ano passado, fala sério. Inflamou o tal do siso e parecia que eu estava com uma bola de golfe dentro da bochecha, e minha boca não abria mais que dois centímetros. Minha mãe me falou que eu parecia um cofrinho. Só passava comida achatada pela minha boca. Pizza, basicamente pizza. E eu não queria comer pizza, porque eu estava na casa da minha mãe e queria comer peixe. Mas a boca não abria. E febre, e dores, e sinusites, e todas as coisas ruins que podem acontecer num dia que você quer estar com a saúde perfeita. Uma merda.

Espero que esse ano seja melhor... menos de 20 dias, e até agora nada errado com os dentes, garganta ou qualquer doença dessas de velho que tenho tido nos últimos tempos. Espero que continue assim, porque eu EXIJO brigadeiros, bexigas e vela que solta faísca. EXIJO. Que fique bem claro. Não quero churrasco porque eu não gosto de carne. Quero carboidratos. Só.

Eu mereço.

5.03.2004

Close to me




Não, não é nada disso. Tito é um cara muitíssimo bacana e gente finíssima e usarei quantos superlativos forem necessários para me redimir. Ele até me deu uma calça linda e de marca (que, claro, não me serve porque estou gorda) e um beijo e quer me fazer feliz.

É que eu sou claustrofóbica. Neurótica, depressiva, obssessiva, paranóica e claustrofóbica. MINHA CASA, que parecia tão grande, ficou pequena. Tem muita coisa agora. E eu estou com medo, caralho, eu sou tudo e ainda medrosa. Quero abrir as janelas porque acho que o ar está acabando. E tem minha mãe (que para completar a cena dantesca resolveu passar uns diazinhos aqui) e Max e Tito e minhas gatas e está todo mundo junto, e eu estou sufocada e com medo. Mas não posso abrir as janelas, minhas gatas fogem. As paredes estão chegando perto, perto, quase encostando. Queria comer assim um macarrãozinho com molho vermelho, mas a cozinha é pequena demais e está todo mundo lá. Queria assistir assim uma tevê mas só tem uma e está todo mundo lá. Queria ler assim meu Jung com uma luz bem fraquinha mas está todo mundo lá acendendo a luz e falando perto de mim. Queria escrever assim uma história de terror bem arrepiante que um dia vai virar um filme mas só tem um computador e está todo mundo lá, querendo jogar uns joguinhos idiotas e fazer trabalhos idiotas de faculdade. NÃO DÁ.

Um dia eu ainda vou ter muita grana e comprar um andar inteiro de um prédio, derrubar todas as paredes e ter só minha cama, minha tevê, meu computador e minhas gatas. E SÓ. E ninguém vai entrar lá porque eu vou engolir a chave.

Comecei a tomar novamente as anfetas que o médico que fala que nem o Walter Mercado me passou sem que eu tivesse que fazer muito escândalo. Médico bom é médico que não pergunta muito.

Depois de ouvir de quatrocentas e vinte e cinco mil pessoas que eu estou gorda (ok, eu sei que estou, mas eu DE VERDADE não ligo muito – só um tico) desenterrei lá as anfetas e recomecei. Isso dá uma sede da porra. Eu tinha esquecido.

Sleep with one eye open




A Fê me avisou, minha mãe me avisou, o Max me avisou. O mundo inteiro me avisou, mas nãããããããããão, eu não ouvi, eu nunca ouço ninguém. E eis que começo então a vislumbrar o inferno que vai ser a minha vida daqui por diante. Não é exagero. É exatamente o que eu estava conversando com a Fê outro dia.
Minha casa está uma zona, coisas espalhadas por todos os lados, panelas que NÃO SÃO MINHAS, pratos azuis que NÃO SÃO MEUS, roupa pendurada no varal que deveria estar secando as MINHAS roupas – não importa que eu não lavo roupas, o varal deveria estar secando as MINHAS roupas – um filtro de água no chão com a cara da HEBE CAMARGO na embalagem (!), uma geladeira estúpida entupindo o meu quartinho das bagunças, sem quase deixar espaço para o banheiro das minhas gatas queridas, que precisam de espaço para espalhar a areia por todos os lados, para que depois eu limpe xingando. TEM UMA PESSOA MORANDO NA MINHA CASA. MINHA CASA. Só agora caiu a ficha, e aparentemente tarde demais. EU NÃO QUERO NINGUÉM NA MINHA CASA. Eu posso ser relapsa e deixar tudo sujo e empoeirado e louça suja de uma semana na pia, porque é a MINHA CASA. Eu quero encontrar todas as minhas garrafinhas de água cheias porque eu as encho sempre quando estou na MINHA CASA, e encho com água do garrafão, porque o cara da água é meu amigo. Como eu poderia dizer para o cara da água que eu não preciso mais dele porque agora tem um filtro da HEBE CAMARGO na minha casa? Eu não quero mais brincar. O menino só está na MINHA CASA há MÍSERAS 48 HORAS e eu já tô doidinha. Deus. Eu sei que preciso da grana, e preciso ser adulta, mas eu não quero, não consigo, porque sou EGOÍSTA e INFANTIL e não quero dividir nada, quanto mais a minha casa. MINHA CASA. A culpa não é do menino, coitado, ele é ultra gente boa e está fazendo o que pode para me agradar. O negócio é comigo, eu sou egoísta. Eu tenho minhas regras. Sou obssessiva e paranóica e quando saio volto para ver se eu fechei mesmo a porta duas vezes. Sou louca, ok, caso bom para tese de doutorado. Nem ligo. De verdade. Mas preciso das coisas do jeito que eu deixei, o equilíbrio do universo depende disso. Como eu posso manter o equilíbrio do universo morando com um cara QUE DEIXA A PORTA DO BOX ABERTA? Minha gata já caiu na banheira duas vezes e numa das vezes machucou a pata, então eu avisei o cara e pedi para ele fechar a porta do box para que minha gata não caia lá de novo. Ele fechou? Nããããããããããããão. Por que fecharia? Minha gata caiu de novo, não se machucou mas se molhou inteira. Será que ele não sabe que gatos normalmente se resfriam se ficaram molhados por muito tempo? Pois é. Minha gata ficou molhada ontem o dia inteiro, porque eu também sou uma debilóide e achei que o cara ia ficar mais à vontade para arrumar as coisas dele se eu não estivesse por perto, e me mandei para a casa da minha mãe. Aí hoje ela está toda espirrandinha, judiação. Até chorei e deixei ela dormir comigo embaixo das cobertas. Ela ficou toda molinha. Filho da puta. Eu odeio pessoas que não ligam para gatos. Eu odeio PESSOAS ESTRANHAS MORANDO NA MINHA CASA. ODEIO FILTRO DA HEBE CAMARGO. ODEIOOOOOOOOOO.

Confusion never stops, closing walls and ticking clocks




Minha avó, Dona Yara, que era diabética, ficou esclerosada no fim da vida. Esclerose é uma doença, ok. Mas sempre achei que os sintomas mais graves eram reflexos de algo maior, e só hoje eu entendo.
Minha avó sempre teve tendência a juntar tranqueiras, acho que porque no começo da vida dela com meu avô eles eram muito pobres, então ela se apegava demais ao que tinha, mesmo que fosse um monte de coisa que não servia para nada. Conforme a doença ia se agravando, agravava-se também a mania de guardar objetos, independente da origem ou funcionalidade: rodas de carrinho de plástico que ela achava na rua, um pedacinho de madeira, um prego, potes usados, pedacinhos de linha de crochê, coisas assim. E ela ia juntando tudo e construindo um mundo só dela, meio que se protegendo das pessoas, das coisas ruins, ali ninguém entrava, ninguém mexia, era a fortaleza dela.
Isso porque meu avô canalha deu um pé na bunda dela quando ela mais precisou dele, quando ela começou a ficar doente, e foi morar com aquela perua oxigenada e largou minha avó sem grana e sem dignidade. Sem dignidade alguma, minha pobre avó. Por alguns anos, minha avó dormia com a foto do meu avô canalha embaixo do travesseiro, esperando que ele voltasse para casa. Ele nunca voltou. Então ela foi guardando as coisas, empilhando, organizando, etiquetando, encaixotando e se ocupando. Para nós, que olhávamos de fora, era surreal. Caixas empoeiradas por todos os lados. Para ela, estava tudo certo. Agora ninguém ia encostar de novo no que era dela.
E não eram só os objetos. Além das pilhas de coisas amontoadas pela casa, ela ainda tinha uma infinidade de móveis, quadros, gatos e plantas.
E presentes. Minha avó era muito foda, nunca esquecia o aniversário de ninguém. E para nós, eu e meu irmão, os únicos netos, ainda tinha sempre um presente nas datas mais esquisitas, tipo passou-de-ano, faz-tempo-que-vocês-não-vêm-aqui, hoje-o-dia-tá-lindo. Nada de valor, nunca era. Meias, um bombom, uma revista em quadrinhos, coisas assim. E a gente adorava. Às vezes rolava até um dinheirinho, ou então ela complementava alguma coisa que a gente queria comprar, como daquela vez em que eu queria porque queria patins (ainda eram daqueles que a gente amarrava por cima do tênis) e eu não tinha o dinheiro todo, claro, éramos pobres e os caramingaus que eu tinha geralmente eram provindos de algum tio ou tia de milésimo grau que me viam uma vez a cada cem anos.
Aí eu estava lá na casa da minha avó, e falei para ela que eu queria os patins. Falei também que tinha visto numa loja lá perto, e custava tanto. Não me lembro quanto era. Aí ela falou assim para mim: “Ahãn, se você tem tanto, falta tanto. Eu tenho o resto, mas você tem que decidir se quer os patins ou que eu compre os biscoitos de maizena que você gosta”. Olha só que linda minha avó era: os biscoitos eram muito mais baratos que o tal par de patins, mas ela me fez escolher, porque eu tinha que aprender que quase sempre para conseguir uma coisa eu deveria abrir mão de outra, que independente do valor material, poderia ser mais importante. Obviamente escolhi os patins, e ela comprou e me deu a lição que esperava. Onde eu ia andar com aquela coisa? Na casa dela não tinha espaço porque era uma bagunça de plantas, gatos e tranqueiras amontoadas; e eu era pequena demais para andar na rua, e mesmo se eu fosse um pouco maior, as ruas eram de paralelepípedos.
Conclusão, os tais patins nem saíram da caixa. Aí, no dia seguinte, estava lá eu, meio tristinha, brincando com algum gato, e chega minha avó com um pratinho de biscoitos de maizena com goiabada. Sorrindo, como sempre, me falou baixinho, como se estivesse me contando um segredo, embora estivéssemos só nós duas, os gatos, as plantas e as tranqueiras na casa: “Viu que sol lindo hoje? Sempre fique feliz quando vir um sol desses. E tome um presente por iluminar mais ainda minha vida.” Cara, foram os melhores biscoitos de maizena com goiabada da minha vida. E eu aprendi a lição que minha avó queria me dar, aliás, as duas lições. A outra era que minha avó era muito foda e me amava muito.

E qual o motivo de eu estar contando tudo isso?
Ontem fui desocupar o armário embutido que estava servindo de porta-tralha no quarto que agora é de Tito. Livros, cadernos antigos, agendas, lápis de cor, tintas, cartões do amigos, tudo, todas as minhas coisas mais importantes, meus tesouros. Depois liguei para D. Eliana para saber se ela não quer ser gentil e me doar uma metade de um guarda roupa que eu sei que só ocupa espaço na casa dela. E contei que eu tirei tralha que não acabava mais do armário. E ela falou, “tudo bem, mas porque você não joga algumas coisas fora?...você está ficando igual à sua avó.”

Hehe.
Estou ficando igual a ela?
Ela me fez assim.
Ainda bem.

Oh, boy.

- Fui no Sesc Pompéia ver o lance do condicionamento físico.
- E aí?
- Dá pra usar desconto, fica baratinho.
- Ah, é? Quanto?
- Mais barato que esse monte de cigarro que você fuma.
- Você também fuma.
- De vez em quando.
- É a mesma coisa.
- Por que você não entra comigo? Vai ser legal.
- Porque eu não tenho dinheiro.
- Ah, vai, é merreca mesmo... A gente vai junto, vai ser legal... Um encoraja o outro...
- Eu não gosto de esporte.
- Mas você gosta de água, tenta fazer natação pelo menos.
- Não quero.
- Vai fazer bem pra você!
- Eu tô ótima!
- Não tá não.
- Tô sim.
- E a sinusite?
- Vai bem, obrigada.
- Você vai morrer antes dos 30.
- Não vou.
- Vai sim.
- Por que você tá tão preocupado comigo?
- Porque você tá gorda.
- Gorda é sua vó.