Nessa bumba eu não ando mais
Olha, até que nem é tão ruim assim andar de ônibus. Afinal, andei de ônibus anos a fio até minha mui gentil mami resolver me ajudar a comprar um carrinho, que pagamos penosamente por trinta e seis meses. Por isso que eu amava tanto meu carrinho, que foi covardemente destruído. Porque demorou um milênio para eu pagar por ele. Até dei uma micro-festa dentro do carro quando acabaram-se as malditas prestações. Mas, como diz o Zê do Bar (não é Zé, é Zê mesmo), acabou-se o que era doce. Agora eu faço parte da parcela que reclama do transporte público. Mas até que gosto de ônibus. Sério. Metrô acho muito impessoal, não dá para saber se o motorista está bêbado. Fora que eu sou claustrofóbica e tenho horror de andar a sessenta quilômetros por hora num caixotão metálico num buraco embaixo da terra cheio de gente espremida. Fico com a sensação de que o ar acabará a qualquer momento. E se esse troço bate de frente? Quem não morrer amassado morre asfixiado. Deus me livre. Voltando ao assunto, claro que dá uma puta raiva quando o ônibus vem lotado, depois de você ficar mais de vinte minutos no ponto tomando uma garoinha gelada na cara, num frio do cacete. Mas tudo bem, compensa. Estou fazendo uma coleção de pérolas de ônibus que você não vai acreditar.
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Ontem à noite estava eu no ônibus lotado, entram três meninas muito falantes, de cabelos alisados e touquinhas de crochê coloridíssimas. Aquilo sempre me lembra um pouco um jamaicano escondendo o rastafári na touca, mas deixa pra lá. As meninas nem eram tão meninas assim. Algo em torno dos vinte anos, mas com aquele vigor de quem não trabalhou o dia todo e certamente não está cansado.
Não havia lugar para sentar, e as raparigas resolveram instalar-se do meu lado, com suas mochilas cheias de chaveirinhos com bichinhos fofos de pelúcia encostando no meu nariz e enroscando no meu cabelo. Cristo. Acredito que o volume da voz de uma delas, mais inflamada, beirava os oitenta decibéis.
Pode ter certeza que eu não levo o menor jeito para defensora dos frascos e comprimidos, mas ontem juro que tive vontade de espancar a bunda de cada uma delas com uma sandália franciscana. Sem dó. As moçoilas despejaram seu veneno juvenil sobre metade da população paulistana, com os argumentos mais absurdos que já ouvi em minha vida.
Um professor que, aparentemente,
NÃO TINHA O DIREITO de dar-lhes notas baixas porque
ELAS ESTÃO PAGANDO A FACULDADE e, consequentemente, o professor em questão pode ser considerado
FUNCIONÁRIO DELAS. Eu sei que essa é um clássico entre as cabeças-de-vento, mas pensei que isso já tinha sido erradicado pela superexposição. Não foi.
Uma amiga delas que, aparentemente anda
GORDA DEMAIS PARA CONTINUAR COM AQUELE NAMORADO LINDO. Ora, façam-me o favor, princesas. O cara gosta dela, gorda ou não. Tem dó. Vão cuidar de suas vidinhas estúpidas e comam alguma coisa que essa anorexia ainda vai matá-las. Broncas já as deixou.
A monitora do laboratório que, aparentemente
USA O MESMO TÊNIS DESDE O COMEÇO DO ANO. Ok, essa foi demais. Pensem, fofas, pensem. Se a menina é monitora do laboratório, significa que ela não tem um pai trouxa bancando tudo o que a filha debilóide, mimada e alisada quer e tem que ralar, certo? Certo. Que tal prestar atenção na aula de laboratório e esquecer por um momento o tênis alheio? Os professores/funcionários agradecem.
Aí toca o celular de uma delas. Caralho, a menina falava muito alto. Pior que isso, só a Carol.
- Alôaah...
(Alôaah? ALÔAAH? Você não é carioca, menina, estava falando que nem paulistana até agora e me manda esse “alôaah” só para fazer gênero. Jesus Maria José.)
- Entáaaum... naum vai dáá, tô no carro da minha miga...
(Carro? CARRO? Ok, chama a polícia que tem mais umas cinquenta pessoas desconhecidas no carro da sua miga. Sem falar que tem um cara ali de camisa azul querendo tirar um troco com essa situação: está cobrando um real e setenta centavos de todo mundo que entra no carro da sua miga. Também aceita passe e um tal de bilhete único. A que ponto chegamos.)
- Náaaaum... depois eu vô prá cadimía, têm que malhar, néaahmm?
(Sim, tem que malhar. Quem sabe a oxigenação de seu cérebro atrofiado melhore, e você entenda que há vida além do secador de cabelos.)
E por aí foi o negócio.
Tentei não ouvir mais a conversa, mas foi impossível. A menina berrava como um rinoceronte no cio. Então testei a técnica que meu papi me ensinou, a do transe. Não é que funciona? Não ouvi mais nada, concentrei-me no meu livro, e li umas duzentas páginas em dez minutos. Qualquer dia desses eu conto como se faz.
Pois é, a técnica deu tão certo que passei meu ponto. Na verdade, o cobrador do ônibus me tirou do transe no ponto final, perguntando se eu estava bem. Eu disse que sim, estava, mas lugar é esse? É o ponto final, disse ele. Sem dinheiro para pegar outro ônibus até a minha casa, já que eu não fazia a menor idéia de onde estava, comecei lá uma lenda para o cobrador me deixar voltar no mesmo ônibus, estava frio, chovendo, bla bla bla. Nem precisei choramingar muito, eu devia estar com a maior cara de doida da face da terra e ele deixou eu voltar sem pagar outra passagem.
Passei meu ponto de novo (afinal, estávamos vindo no sentido contrário e eu não estou acostumada com o trajeto), mas essa eu mereci. Castigo por ficar ouvindo a conversa alheia.